19 janeiro 2018

Arquitetura

A arte de se terminar uma obra

Original de Buildin
A arte de se terminar uma obra - Luiz Henrique Ceotto
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Terminar uma obra de forma correta é um assunto ainda pouco debatido na construção de edifícios e somente engenheiros com boa experiência reconhecem ser uma atividade de grande complexidade.

A dificuldade é tão grande que já se consolidou a máxima de que “obra não se termina, se abandona”.

Saber terminar uma obra é de certa forma, uma arte que vale a pena ser discutida embora possa parecer obvia para muitos.

Certamente não esgotaremos o tema, mas é possível nesse pequeno espaço analisarmos alguns tópicos importantes que poderão ajudar muitos profissionais a aprimorar seus conhecimentos.

Especifique corretamente os acabamentos de uma obra

Um dos maiores erros que podemos cometer é na especificação “ingênua” de um edifício.

Muitos arquitetos especificam materiais de acabamentos usados em casas, onde áreas pequenas podem ser facilmente controladas. Mas que se tornam “ingerenciáveis” em grandes áreas comuns de edifícios.

Ou especificam materiais usados em áreas externas públicas. Estes podem ficar muito bonitos em parques, mas que são de aparência desastrosa em áreas comuns de edifícios.

Um exemplo desses são os materiais muito porosos. Daqueles que não possibilitam arremates, quando usados próximos a jardins, junto a deságuas de fachada ou em local de grande trânsito de pessoas.

Caso haja algum problema de sujeira, esses materiais vão ser de difícil limpeza e vão denunciar facilmente eventuais retoques. São materiais que envelhecem o edifício com pouco tempo de uso, dando uma aparência de mau acabamento e de sujeira.

Um dos materiais mais desastrosos que podem ser especificados é o mosaico de pedra portuguesa. Como o rejuntamento entre as pedras é feito com areia, qualquer sujeira penetra entre as pedras e é impossível sua limpeza.

Qualquer correção é facilmente denunciada, pois as pedras retiradas de uma área a ser corrigida não vão mais caber nessa mesma área. Isso leva a conseqüente aumento das juntas, marcando o local de forma irreversível.

Mosaicos podem ficar muito bonitos em parques públicos onde o usuário é condescendente e não liga para arremates ou para uma limpeza mais rigorosa. Mas podem ser desastrosos em áreas privadas de condomínios de edifícios onde o morador é muito mais exigente com detalhes os quais estão muito mais próximos do seu campo de visão.

Atente para os caimentos

Outro erro comum é no caimento das capas de parapeitos ou nos muros de fixação dos gradis de varandas. É sempre preferível fazer o caimento para dentro da varanda do que para a fachada.

O caimento para fachada fará com que toda a poeira acumulada sobre essas capas manche a fachada. Isso acontece principalmente na fase de término de obra em época de chuvas, fase essa de grande produção de poeira.

Vários erros de especificação poderiam ser levantados, mas vale a pena mencionar mais um: o término de paredes pintadas junto a pisos molháveis ou à jardins sem a utilização de rodapés de cerâmica (ou de pedras) como elemento de ligação entre a parede e o piso.

Qualquer chuva ou lavagem sujará com facilidade o pé dessas paredes, dando um aspecto de mau acabamento, que nunca será resolvido. O ideal é, sempre que possível, evitar muros e muretas sem revestimento nos térreos. E, quando não for possível, evitar que estes fiquem em contato com jardins ou sejam executados sem rodapé.

Procure terminar uma obra desde o seu início

Já foi discutido em artigos anteriores a importância da “terminalidade” dos serviços na cadência e na redução do re-trabalho das obras.

Outro ponto onde a “terminalidade” é fundamental é na garantia de término da obra dentro do planejado.

A “terminalidade” dos serviços permite que a fase de obra fina (acabamentos) se inicie sem que restem arremates de obra bruta por fazer.

Quando esses arremates acontecem, os serviços complementares de obra bruta sujam e estragam com muita facilidade os de obra fina provocando atrasos e prejuízos importantes.

Limpe a obra diariamente

A exigência de que todo o serviço no final de cada dia tem que ser deixado limpo e com o lixo removido é fundamental para terminar uma obra.

Sujeira deixada para ser limpa no final da semana ou mesmo no final da etapa de obra esconde com facilidade serviços mal feitos e provoca danos em acabamentos de partes adjacentes.

A exigência de que o próprio profissional faça essa limpeza é profilática e faz com que ele tenha mais cuidado no trabalho sabendo que é ele mesmo quem vai limpar.

A falta dessa exigência onera e dificulta sobremaneira terminar uma obra com equipes limpando o tempo todo serviços que poderiam ser feitos com mais cuidado, num ciclo sem fim. Cada equipe que entra para fazer uma limpeza acaba por sujar outro lugar que estava limpo e terminado.

Escolha a sequência correta do acabamento

Significa que determinados serviços devem preceder outros tanto pelo fato de facilitar a sua aplicação como facilitar a limpeza final do local.

Serviços que podem sujar outros de forma irreversível devem precedê-los, assim como serviços que não permitem retoques devem ser deixados para o final.

Deve-se analisar com muito cuidado a interface entre esses serviços de forma que o aspecto final fique de acordo com o imaginado.

Como exemplo, serviços de pedra ou de cerâmicas devem preceder a pinturas. E serviços de pinturas devem preceder a colocação de acabamentos elétricos e assim por diante.

Texturas devem ter algum tipo de friso separando-as de superfícies lisas. Isso além de muito cuidado na interface entre pedras naturais e pinturas.

Nesse sentido, “mockups” (modelos) devem ser feitos previamente. Isso de forma que as interfaces dos materiais sejam estudadas e o aspecto final validado pelo proprietário.

Às vezes essa precedência envolve serviços que não se tocam diretamente. A pintura de tetos ou a colocação de luminárias sobre jardins tem que preceder a própria confecção do plantio. Caso contrário, a utilização de escadas pode danificar o paisagismo e sujar as plantas.

O trânsito de operários com escadas e andaimes nos jardins provocará sujeira nos pisos adjacentes. Se esses pisos forem de difícil limpeza, o término da obra estará comprometido.

É muito importante que a sequência correta seja estudada com muito cuidado e que seja obedecida. É necessário que os materiais a serem usados em cada serviço sejam planejados e estejam na obra na hora correta.

A falta de um material pode provocar a inversão na ordem correta dos serviços, provocando muitas vezes a necessidade de arremates que dificultarão sobremaneira terminar uma obra.

Use proteções com abundancia

Economizar em proteções, tais como fitas adesivas, papel pardo, plásticos, papelões, vaselina etc., é o meio mais rápido de se ter uma obra complicada, cara e mal-acabada no seu término.

Toda a proteção tem que ser utilizada e cuidadosamente verificada de forma a garantir que um serviço seja feito sem danificar ou sujar o subseqüente. Arremates custam muito mais caro do que proteções e gastam muito mais tempo para serem feitos.

Defina regiões de término com controle rigoroso de acesso

Não existe término de setores da obra com trânsito de pessoas no local. Deve ser planejado o término da obra por zonas com perímetro bem definido com absoluta restrição ao acesso de operários.

Essas áreas têm que ser rigorosamente controladas e têm que ter responsável por sua inviolabilidade. Se eventualmente um operário tiver que entrar para realizar qualquer serviço pendente, por mais simples que ele seja, tem que ser acompanhado por um encarregado. Ao sair, o local tem que ser inspecionado para ver se não houve qualquer tipo de dano.

Pior do que corrigir um dano é não saber que ele existe e só descobrir a poucas horas da entrega para o cliente.

Além disso, quando um operário sabe que vai ser inspecionado ao término de um serviço ele toma muito mais cuidado do que normalmente faria em uma situação normal.

Escadas devem ser as últimas a ser terminadas. Sua pintura final deve acontecer rigorosamente após todos os serviços dos andares terem sido completados. Além de todo o transporte de materiais excedentes que não possam ser levados pelo elevador ter acontecido.

Contrate mestre e encarregados de acabamentos

Por fim, é necessária a contratação cuidadosa de profissionais que realmente entendam de acabamentos para chefiar equipes de obra fina.

A seleção de um mestre de obras cuidadoso, acostumado com acabamentos e realmente comprometido com detalhes é decisivo no sucesso de uma finalização de obra.

Bons mestres de obra bruta (fundações, estrutura, alvenaria, impermeabilizações, sistemas prediais etc.) são, na maioria das vezes, incompetentes em acabamentos.

Um mestre de acabamentos possui habilidades específicas e deve ser contratado para esse fim.

Mantenha a atenção máxima em cada serviço e em cada parte da obra

A atenção do engenheiro deve ser redobrada nessa fase. E a presença física dele em cada parte da obra diariamente é fundamental para ver se algo está saindo do controle.

Cada parte da obra tem que ser rigorosamente inspecionada diariamente com os olhos de quem planejou o seu término. E isso tem que ser feito de forma organizada e sem pressa.

Inspeções devem ser feitas diariamente em horários regulares com a presença dos envolvidos (encarregado de cada empreiteiro). Devem ser finalizadas com reuniões rápidas para avaliar a situação e tomar as medidas urgentes de correção.

Manter o nível de exigência nessa fase requer um esforço contínuo e muitas vezes exaustivo. Mas é determinante no seu sucesso.

Faça reuniões diárias de 15 minutos com as equipes de produção

A finalidade é saber o que esta dando certo e o que está dando errado. O contato cooperativo com as equipes de produção, ouvindo suas observações e reclamações, é fundamental. Proporciona percepção se as premissas levadas em conta no planejamento estão certas ou precisando de ajustes.

É uma oportunidade importante de ajudar as equipes de produção ao terminar uma obra. Entenda os problemas que estão enfrentando, ajude-as de forma efetiva, e não fique simplesmente cobrando mais velocidade.

Conclusão

Todos os itens acima são importantes e devem ser tomados simultaneamente. Ao terminar uma obra é difícil estabelecer qual deles é prioritário.

A atenção com detalhes é o que pode diferenciar uma obra que “reluz” de outra que parece “opaca”.

É o coroamento de meses de esforços. Pois uma obra tem que ser sempre bem construída, mas também tem que parecer bem construída. Inúmeros outros itens poderiam ser abordados mas penso que esses são os mais importantes.

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Autor
Luiz Henrique Ceotto

Sócio da Tecnoenge Consulting, atuou como diretor de Design e Construção da Tishman Speyer. Durante 20 anos gerenciou atividades de construção em empresas como Encol S/A e Inpar.

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