30 Janeiro 2018

Arquitetura

O que podemos aprender com o incrível banheiro japonês

Original de Buildin
Banheiro japonês Jonas Silvestre Medeiros 03
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O Japão tem uma superfície territorial 22 vezes menor do que a do Brasil. E uma população de pouco mais da metade. Lá são 336 hab/km2, enquanto aqui somos apenas 24 hab/km2. Isso já explica em parte a necessidade daquele país precisar ser muito mais eficiente em ocupar seus espaços, sejam eles públicos ou privados.

Um exemplo definitivamente singular da capacidade do design e da arquitetura japoneses em se adaptar de forma eficiente aos seus espaços reduzidos são os banheiros das casas e apartamentos.

Ofurô x toilet

A primeira coisa importante para conhecer um pouco o assunto é entender melhor o que eles chamam de banheiro. Os japoneses separam o que conhecemos de modo geral como banheiro em três ambientes diferentes. O ambiente onde fica apenas o vaso sanitário é chamado de toire (do francês toilet) e o outro destinado ao banho onde quase sempre existe uma banheira é chamado de ofurô ba (lugar de banho). O lavatório utilizado para enxaguar o rosto e escovar os dentes é chamado de sen’men’jo e fica no mesmo local onde está a máquina de lavar roupas. Desta maneira três pessoas podem usar ao mesmo tempo as instalações para necessidades diferentes e fica suprimida a nossa área de serviço convencional.

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No “toilet” é comum o lavatório ser substituído por uma pequena pia que fica sobre a caixa acoplada. Quando se aciona a descarga, a torneira é acionada automaticamente e então se lava as mãos ao mesmo tempo que a caixa acoplada é alimentada. Genial e econômica ao mesmo tempo! Difícil acreditar como ninguém tenha pensado em fazer isso antes no ocidente.

Costumes milenares

A necessidade de ter uma banheira é muito forte na cultura japonesa. Os apartamentos e casas mais recentemente são sempre equipados com uma, mas nem sempre foi assim. Os japoneses frequentam banhos públicos há milênios como forma de relaxar e melhorar a saúde. Eles são chamados de “onsen” e aproveitam as águas termais abundantes de um dos países mais vulcânicos do mundo.

Hoje em dia nas casas e apartamentos os ofurôs são alimentados por aquecimento a gás, mas a água é aproveitada pela máquina de lavar roupas que fica invariavelmente no ambiente ao lado. Isso é comum porque os ofurôs são usados apenas para relaxamento e não para limpeza. Eles ficam cobertos por uma tampa térmica de enrolar. Não se pode entrar sem tomar antes um banho cuidadoso de ducha. Os ofurôs são alimentados apenas uma vez por dia e utilizado por toda a família para depois ter sua a água reutilizada pela máquina para na lavagem das roupas.

Três ambientes distintos para coisas distintas

Há diversas e boas razões para separar o vaso do banheiro, e os japoneses parecem saber disso há desde muito tempo. Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas em um passado não muito distante os banheiros do ocidente também eram assim. Foi somente mais recentemente que engenheiros resolveram, por conveniência e economia, reunir as necessidades instalações em um mesmo cômodo, e não porque isso fosse melhor para a saúde ou a coisa certa a fazer.

Muitos destes aspectos têm sido comprovados pelas pesquisas do professor Charles Gerba que dedica sua vida ao assunto. Gerba demonstrou que as gotículas de água altamente contaminada podem viajar pelo ar com facilidade a uma distância superior a 1,80 m atingindo escovas de dentes e toalhas próximas. Por aqui, então, seria melhor ao menos o cuidado de fechar a tampa do vaso antes de acionar a descarga, enquanto seu lavatório está ali bem ao lado do vaso sanitário.

Tecnologia sanitária

Mesmo no Japão de hoje o visitante dificilmente vai encontrar cestos de papel higiênico. Os vasos sanitários são dotados de jatos retráteis que realizam todo o serviço que o papel poderia fazer com muito mais segurança e eficiência. Os próprios vasos são fabricados com louça autodescontaminante que utilizam há anos a nanotecnologia do titânio fotocatalítico.

Há instruções de uso dos vasos japoneses por todos os lados, inclusive em inglês. O papel deve ser jogado sempre dentro do vaso e nunca no cesto de lixo. Por um lado os vasos com controle eletrônico dispensam a principal função do papel higiênico. Por outro, o próprio papel em si é diferenciado, dividindo-se rapidamente em pequeníssimas partículas quando em contato com água. Resultado: além de mais higiênicos o banheiro japonês praticamente não cheira mal e não atrai moscas. Afinal, não ficam com papel sujo durante horas e horas, muitas vezes mal acondicionado.

Tecnologia de construção

Os aspectos higiênicos e de praticidade em si já fazem do banheiro japonês uma atração. Mas o que realmente me chamou atenção, enquanto especialista em engenharia de construção, foi a maneira como eles são montados.

No Brasil, os banheiros são construídos de maneira tradicional, assim como o resto do apartamento ou da casa. Com a planta pré-definida no momento de fechar o negócio, pouco se pode fazer para alterá-lo com relação ao projeto original imaginado pelo arquiteto da construtora.

Esta liberdade é maior se você vai construir sua própria casa. Mas quase invariavelmente os banheiros têm paredes de alvenaria, pisos de concreto, teto de gesso pintados e revestimento cerâmico. Cada etapa destas etapas é executada sequencialmente na obra, uma após outra, de modo artesanal. Isso incluindo também as instalações elétricas, de água fria e quente, gás, impermeabilização, contrapiso e emboço de argamassa. Pouco se evoluiu nas últimas décadas além do design mais arrojado dos metais, louças e materiais de acabamento.

No Japão, seja para um apartamento ou casa nova ou reforma, o caminho percorrido é totalmente diferente. O banheiro japonês é comprado como unidade completa conhecida como “unito basu”, do inglês unit bathroom, e 100 % pré-fabricado. Piso, paredes, teto, com estrutura, instalações e acabamento, metais sanitários e acessórios, são comercializados juntos como um kit completo para montagem no local por mão de obra treinada. Em única loja, através de uma única empresa, sob a égide de um único contrato. Qualquer pessoa no Japão consegue ter um banheiro novo em menos de uma semana, do pedido à montagem completa

“Segredos” do banheiro japonês

Há três “segredos” muito bem definido por trás desta solução. O primeiro “segredo” é que o banheiro japonês é uma obra prima do design industrial e da logística moderna. No país do modo vida eficiente e do shinkansen, o banheiro japonês é uma expressão de como a engenharia pode estar a serviço da praticidade.

Ele está em todos os lugares. Das residências rurais, aos hotéis de luxo, passando por casas e apartamentos de todos os padrões. Há modelos e preços para todos os gostos e necessidades. São comercializados e montados em todas as regiões através de milhares de pontos de vendas. Estão presentes em praticamente toda e qualquer cidade, com valores a partir de R$ 10 mil. Mas que podem chegar facilmente aos R$ 50 mil por unidade.

O segundo “segredo” é a capacidade de customização realizada pela indústria. As “montadoras” abusam da tecnologia digital em seus sites onde é possível customizar, a partir de um amplo menu de opções de configurações, equipamentos, materiais e acessórios. Navegar ali é como assistir a uma aula da aplicação dos conceitos da customização em massa. De como usufruir dos benefícios do processo industrial. Tudo sem perder as vantagens da flexibilização para atender aos desejos específicos dos clientes. 

O terceiro “segredo” é como o mercado foi estrategicamente organizado para aproveitar e incentivar a cultura japonesa do “scrap and build”. O conceito de pré-fabricação em componentes modulares aplicado ao banheiro japonês parece estar intimamente relacionada com fato de existir um forte mercado para renovação dos banheiros. Tanto para casas como para edifícios.

Assim como nos banheiros, os japoneses de tornaram para mim o melhor benchmarking para entender uma série de paradigmas da industrialização da construção. Um exemplo a ser seguido? Sem dúvida. Reproduzir as mesmas soluções de lá aqui? Provavelmente não.

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Autor
Jonas Medeiros

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