20 dezembro 2017

Especialistas

Produtividade parte 1– como medir de forma prática e com baixo custo

Original de Buildin
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De certa forma a produtividade tem sido um conceito muito pouco valorizado pela nossa Construção Civil, principalmente pelo setor de edificações. Em minha opinião esse comportamento decorre do uso histórico de mão de obra de baixa qualificação. Como baixa qualificação é intimamente ligada à baixa remuneração, o desperdício de mão de obra nunca foi uma preocupação que pudesse tirar o sono do nosso setor e por isso temos muito pouca pratica de como medi-la.

Investimentos em tecnologia que pudessem resultar num aumento significativo de produtividade foram experimentados por pouquíssimas empresas e na maioria das vezes abandonados rapidamente. Com os altíssimos juros praticados nas ultimas décadas, o aumento da produtividade não foi suficiente para remunerar esses investimentos. Como consequência o setor ficou atavicamente ligado ao uso da mão de obra intensiva e acabou se acostumando com isso.

Entretanto os tempos mudaram. Estamos diante de uma mão de obra cara mesmo diante da crise que estamos passando. Os custos indiretos fazem com que o custo da mão de obra seja muito alto comparado a remuneração paga diretamente ao trabalhador. Também a enorme e complexa regulamentação das leis trabalhistas vem aumentando muito o risco das contratações. Gradativamente a produtividade esta se tornando um assunto importante nas empresas e sua importância será cada vez maior com a redução da disponibilidade da mão de obra que o setor ira experimentar na próxima década em função do envelhecimento demográfico dos trabalhadores.

As construtoras precisarão enfrentar esse o desafio da produtividade. Se essa questão não for encarada de forma firme e sistemática, corre-se o risco da construção civil permanecer sendo uma indústria instável, pouco rentável e destinada a atrair poucos investimentos.

Conceito de produtividade

O conceito da produtividade é muito simples e refere-se a quantidade de um insumo necessária para a fabricação de uma unidade de produto. Aqui estaremos considerando a produtividade do trabalho humano, ou seja, a quantidade de horas homem trabalhadas para produzir uma unidade de produto. Essa unidade pode ser 1 m2 de construção, 1 m2 de alvenaria, 1 m3 de estrutura e assim por diante.

Medição da produtividade

A produtividade é mais lembrada quando, ao se fazer um orçamento, nos deparamos com composições tiradas de revistas, que não levam em conta o processo de trabalho adotado, as especificidades dos serviços a serem executados, ferramentas e equipamentos utilizados, etc. Inexplicavelmente sempre induzem uma proporção 1:1 entre oficiais e serventes além da produtividade não variar com o local onde o trabalho é feito. Ao se tentar medir e controlar a produtividade usando-se essas composições como referencia é necessário a utilização de inúmeros “apropriadores”, pois o serviço é planejado de forma muito fragmentada tendo como resultado enorme variabilidade nos números apurados. A dificuldade da medição e os altos custos dessas apropriações desestimulam essas iniciativas e pouca coisa tem sido feita na melhoria essa abordagem.

Para obtermos números mais estáveis e, portanto, mais úteis num processo gerencial, a produtividade tem que ser avaliada de forma mais abrangente e simples. Do ponto de vista gerencial, é mais importante saber o total de mão de obra usada para se fazer toda a estrutura do que para uma parte do serviço, tais como o corte de chapas de compensado. Os valores da produtividade de toda estrutura são muito mais estáveis do que a produtividade do corte das chapas, a qual dependerá de diversos fatores e será muito mais influenciada por qualquer pequena variação desses fatores. Isso decorre da “Lei dos Grandes Números” onde uma variável estatística decorrente de uma grande soma de fatores aleatórios tende a variar menos do que suas partes. Não significa que a medição da produtividade de etapas de um serviço nunca deva ser feita, mas que é mais importante controlar a produtividade do serviço completo de forma contínua do que tentar obter a produtividade de cada uma das partes do processo. A produtividade das partes é importante eventualmente para avaliar o entrosamento do fluxo de produção ou para propor uma alternativa de processo de trabalho. A produtividade de toda a estrutura pode ser usada para comparar obras e soluções de estruturas diferentes bem como para nos anteciparmos a custos mais altos a serem enfrentados por empreiteiros.

A produtividade total do serviço pode ser facilmente avaliada, com custos muito baixos, dispensando-se a utilização de “apropriadores” bastando-se para isso se usar recursos já implantados pela maioria das empresas tais como o crachá de identificação e/ou o diário de obra.

Como cada operário ao entrar num canteiro de obras deve estar devidamente identificado, o crachá pode ser “lido” na entrada da obra através de sistema de catracas ou por sensores de aproximação (menos sujeitos a defeitos por intempéries). Caso a obra não disponha desse tipo de sistema, cada empreiteiro ou líder de equipe deve informar diariamente à administração da obra a relação do pessoal que está sob sua responsabilidade. Essa relação com o nome de cada trabalhador e a equipe a que pertencem deve ser apontada no diário de obra. Com essas informações é possível se obter a produtividade alcançada no final de cada serviço, de forma muito simples somente apurando-se os trabalhadores locados na obra para cada tipo de serviço.

Como cada operário trabalha, ou está disponível para trabalhar, diariamente numa jornada de nove horas, o total das horas trabalhadas no final de qualquer serviço pode ser obtido pela soma do produto do efetivo diário por 9 hs. Como cada trabalhador pertence a equipe de um empreiteiro (e cada empreiteiro a um serviço especifico), podem-se obter as horas trabalhadas em cada serviço (estrutura, alvenaria, massa de fachada, sistemas hidro-sanitários, etc) pela alocação correta do operário em cada serviço no diário de obra. A produtividade pode ser obtida dividindo-se essas horas trabalhadas pela quantidade de serviço executado (m2 ou m3 de estrutura, m2 de parede pronta, pontos hidráulicos, pontos elétricos, etc). Nesse procedimento não é possível se saber a produtividade da fixação das prumadas hidráulicas em um edifício, mas é possível com facilidade se saber a produtividade da execução do sistema hidráulico por banheiro ou por m2 de área construída.

A produtividade medida dessa forma considerará horas ociosas, horas perdidas por falta de materiais, horas de transporte de materiais, etc, mas do ponto de vista do controle da produtividade é o que realmente importa. Pouco adianta saber a produtividade de um serviço com dedicação total e com tudo dando certo. Essa produtividade “ideal” é somente importante para se saber o “potencial” de produtividade que se pode almejar. Essa produtividade “potencial” deve então ser obtida por amostragem e somente de forma eventual.

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Autor
Luiz Henrique Ceotto

Sócio da Tecnoenge Consulting, atuou como diretor de Design e Construção da Tishman Speyer. Durante 20 anos gerenciou atividades de construção em empresas como Encol S/A e Inpar.

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