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Em tempos em que se busca um modo de vida mais sustentável em todos os campos do conhecimento, e por uma vida em harmonia com a natureza, muitas pessoas já conhecem ou ouviram falar em bioconstrução ou bioarquitetura.  

Essas palavras, que fazem referência às edificações sustentáveis que usam predominantemente materiais naturais, não estão no dicionário. São palavras cunhadas. Creio que quando se cria uma nova palavra, um novo termo, é pela necessidade de se comunicar uma ação, uma tendência, um movimento. Uma nova palavra para algo novo.

Seriam as técnicas que usamos na bioconstrução algo novo? Certamente não. Pelo contrário, o uso de materiais naturais para a construção acompanha a história da humanidade. Cunha (2009) considera evidências de que as primeiras construções da humanidade, feitas de madeira e palha, datam de 100.000 a.C. Tratavam-se provavelmente de abrigos temporários utilizados por povos caçadores e coletores que tinham necessidade de se distanciar de seus abrigos permanentes (cavernas)[i] por um tempo prolongado.

Mas talvez a novo, que gera a necessidade de novas palavras, seja o movimento, a busca. Hoje vivenciamos um momento na construção civil no Brasil e no mundo em que predomina a tendência do uso de materiais industrializados que utilizam grandes quantidades de recursos naturais e demandam muita energia para serem fabricados. Claro que a indústria e a alta tecnologia também nos ofertam diversas soluções que auxiliam a promover a sustentabilidade nas edificações. No entanto, sabe-se que a construção civil é a atividade humana que gera maior impacto ambiental.  De acordo com Keeler e Burke (2010)[ii] 48% da energia produzida nos Estados Unidos é utilizada para construção e manutenção de edificações, e são elas as responsáveis por 30% da emissão de gases causadores do efeito estufa (KELLER E BURKE, 200, pg. 51). Portanto, a busca pela diminuição desse impacto é evidente. Assim sendo, das muitas formas de se obter sustentabilidade nas edificações, a bioconstrução é apenas uma delas – e para cada edificação, uma solução. 

Voltando às denominações: ao constatar-se que as palavras não estão nos dicionários oficiais da língua portuguesa, entende-se que não existe uma definição oficial do termo. Mas porque a importância de conceituar? Para fortalecer um movimento precisamos torna-lo conhecido e, especialmente, legitimá-lo. Esta legitimação pode se dar por meio de ações práticas, empíricas ou pela pesquisa científica. Considerando a importância do papel da pesquisa científica, torna-se útil (e necessário) conceituar e nivelar as informações para aprofundar o conhecimento através de experimentações.

Em 2008 escrevi uma cartilha[iii] publicada pelo Ministério do Meio Ambiente denominada Curso de Bioconstrução. Criada para servir de material didático em um curso ministrado no Delta do Parnaíba, a cartilha foi amplamente divulgada.

Nessa publicação busquei definir a bioconstrução com a seguinte frase: “Construção de ambientes sustentáveis por meio do uso de materiais de baixo impacto ambiental, adequação da arquitetura ao clima local e tratamento de resíduos” (PROMPT, 2008). Farei então uma reflexão a respeito deste conceito.

 

 

 

Quando se fala em construção de ambientes, fica claro que se está considerando aqui algo que vai para além das edificações. Isto me parece razoável, uma vez que uma edificação nunca está isolada. Mesmo uma casa rural tem influência em seu entorno, e também é influenciada por ele. No meio urbano, cada edificação também influencia no conjunto, e é influenciada por ele.

Na sequência a definição carece de generalidade. Vai além a conceituação e especifica os meios para o logro da sustentabilidade dos ambientes construídos, sendo tendenciosa para algumas premissas. As sugestões dadas pela definição são importantes, mas, se por um lado, em termos de conceituação este direcionamento traz demasiada especificidade, por outro os caminhos são demasiadamente genéricos.

Esta talvez seja a característica mais marcante associada à bioconstrução, que abusa de materiais como terra crua, bambu, madeiras reaproveitadas, palha, pedras e aditivos de origem vegetal. Ainda assim, não podemos nos deter a somente estes materiais que são “a cara” da bioconstrução. Primeiramente porque nem sempre teremos estes materiais disponíveis – sempre lembrando que as soluções devem ser pensadas para cada caso. E segundo porque a indústria, como já foi citado, oferece diversas soluções para diminuir o impacto das edificações. Assim sendo, a pesquisa sobre materiais disponíveis no mercado é imprescindível – vale ressaltar que devemos sempre favorecer materiais produzidos na região.Materiais Naturais e de Baixo Impacto Ambiental

Arquitetura Bioclimática

Logo entramos na questão de adequar a arquitetura ao clima local. Ainda que possa parecer óbvio, é uma premissa que é deixada de lado em muitas edificações. Entretanto, a informação disponível é ampla. Uma busca simples por informações sobre bioclimatismo ou arquitetura bioclimática abre as portas para um mundo de ideias e soluções – em grande parte simples e de baixo custo se pensadas desde o princípio do processo de projeto.

Saneamento e demais tratamentos de resíduos

A seguir entra a questão do tratamento dos resíduos. A importância deste tema é imensa, tendo em vista que, no Brasil, menos da metade da população tem acesso a saneamento[iv].  Torna-se portanto essencial a consciência a respeito dos resíduos que geramos, e a respeito da melhor forma de trata-los de forma autônoma.

Cada um desses temas abre caminho para um vasto campo de conhecimento. De momento, esta reflexão foi feita sobretudo para abrir a discussão sobre os termos que vem sendo utilizados. Internacionalmente, um termo comum para estas construções integradas ao meio ambiente, que usam materiais naturais e trazem sistemas de tratamento dos resíduos seria “natural building”, ou seja, construção natural. Consultando cada palavra no dicionário da língua portuguesa, podemos facilmente verificar a coerência do termo. O dicionário Aurélio define construção (1) Ação, processo ou efeito de construir; arte e técnica de construir e natural (1) Relativo ou pertencente à natureza ou (2) gerado pela natureza, conforme suas leis. Assim sendo, podemos combinar as definições descrevendo a construção natural como a arte de se construir conforme as leis da natureza.

E o que seria construir conforme as leis da natureza? Entender quais recursos são abundantes e quais são finitos; que todos os seres têm seu lugar e vivem e perfeito equilíbrio, respeitando o espaço e a vida. Trabalhando em sintonia com o ambiente natural, aproveitando suas energias e o que ele tem a oferecer, sem jamais confrontá-lo, ou seja, construindo em harmonia com o clima e a paisagem.  Entendendo que nada se perde e tudo pode ser reaproveitado, mesmo os resíduos aparentemente mais difíceis de se tratar.

[i] São consideradas as primeiras construções da humanidade as escavações em rochas e na terra, provavelmente feitas pela semelhança nas aberturas já existentes (cavernas). Fonte: DA CUNHA, José Celso. A História das Construções, Volume 1: Da Pedra Lascada às Pirâmides de Dahchur. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

[ii] KEELER, Marian e BURKE, Bill. Fundamentos de Projeto de Edificações Sustentáveis. Porto Alegre: Bookman, 2010.

[iii] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Secretaria de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável. Departamento de Desenvolvimento Rural Sustentável. Curso de Bioconstrução: Ilha Grande do Paulino – Tutóia – MA. Texto elaborado por: Cecília Prompt – Brasília: MMA, 2008.

[iv] Fonte: http://www.akatu.org.br/Temas/Agua/Posts/Menos-da-metade-da-populacao-brasileira-tem-acesso-a-saneamento. Acesso em 29 de maio de 2017.