6 Fevereiro 2018

Área de interesse

Personalidades da Engenharia – Enedina Alves Marques

Original de Buildin
Enedina Alves Marques engenheira
0

Na série Personalidades da Engenharia, o Buildin apresenta alguns dos principais nomes do setor que fizeram história como engenheiros. Dando sequência à série iniciada com um perfil sobre Milton Vargas, neste artigo vamos apresentar um pouco da vida de Enedina Alves Marques.

Caso você ainda não saiba quem foi ela, nós a apresentamos. Enedina Alves Marques foi nada mais, nada menos, que a primeira mulher negra a se formar em engenharia no Brasil e a primeira engenheira do sul do país.

Se você gosta de aprender sobre a história da engenharia no Brasil, precisa saber mais sobre a vida de Enedina.

Em uma profissão majoritariamente formada por homens brancos e de classe social elevada, uma mulher, pobre e negra não poderia passar despercebida.

Não foi apenas pelos seus adjetivos físicos que a fizeram entrar para a história, mas pela sua capacidade como engenheira.

Neste artigo, você vai entender a importância dessa mulher para a profissão e como ela se relaciona à indústria da construção civil.

Boa leitura!

Um pouco de história

Se ainda nos dias de hoje a desigualdade social no país é uma questão vigente, anos atrás essa diferença era muito maior.

Atualmente, no Brasil, 46,7% das pessoas se consideram pardas e outras 8,2% se identificam como pretas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mesmo que a população que se entende como branca seja a minoria, são os pardos e pretos que representam mais da metade dos desocupados no país. São 63,7% sem emprego.

A história do Brasil se reflete nesses números preocupantes. O mercado de trabalho para os negros não é tão aberto quanto para os brancos.

Seja por preconceito racial, por gênero ou diversos outros fatores, há muita gente que permanece à margem da sociedade.

Porém, existem pessoas que quebram paradigmas. Enedina Alves Marques foi uma dessas. Ela é um exemplo de que o futuro para os menos favorecidos pode ser mais otimista.

Enedina Alves Marques

Enedina nasceu em janeiro de 1913, em Curitiba (PR) e faleceu em 1981 também em Curitiba.

Em 1945, graduou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), entrando, assim, para a história do Brasil como a primeira mulher negra a se formar em engenharia no país e a primeira engenheira do sul.

Enedina foi também a única mulher a se formar na turma de engenharia de 1945 da UFPR, ao lado de 32 colegas homens. Até então, em todo o país, somente quatro mulheres tinham se graduado em engenharia pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

Sua mãe trabalhava como doméstica na casa da família do major e delegado Domingos Nascimento Sobrinho.

A filha de Domingos tinha a mesma idade de Enedina. Por isso, o delegado a matriculou nas mesmas escolas da filha.

Ainda assim, conquistar seu diploma de engenheira civil não foi simples. Sua família era pobre e mesmo dependendo do apoio de Domingos, Enedina trabalhava como babá.

Após terminar a escola normal secundária em 1931, como era chamada na época, passou a lecionar.

Como professora, ela trabalhou em diversos grupos escolares em Curitiba. No entanto, entrar na universidade era o seu maior desejo.

Por isso, depois de alguns percalços, Enedina Alves Marques, conseguiu, finalmente, entrar no curso que tanto sonhava em fazer.

Na década de 1940, o racismo era ainda mais presente entre as pessoas. Enedina sofreu preconceito tanto por parte de seus colegas de classe como pelos professores.

No entanto, motivada e usando sua inteligência para seguir em frente, Enedina não desistiu!

Fontes afirmam que a engenheira chegou a virar noites copiando textos dos livros que ela não podia comprar.

Enedina Alves Marques (à esquerda) entre outras professoras, em Rio Negro (PR)

Enedina Alves Marques (à esquerda) entre outras professoras, em Rio Negro (PR)

Carreira

Um ano depois de formada, em 1946, Enedina Alves Marques atuou como auxiliar de engenharia na Secretaria de Viação e Obras Públicas, no estado do Paraná. Depois foi chefe de hidráulica, chefe da divisão de estatísticas e, após, do serviço de engenharia da Secretaria de Educação e Cultura.

Já em 1947, ela inicia seu trabalho em um novo local, o Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica.

Esse período, de acordo com alguns pesquisadores, foi o auge da sua carreira. Ela atuou no levantamento topográfico e construção da Usina Capivari-Cachoeira (Usina Parigot de Souza).

Lá, Enedina contribuiu na construção de pontes e no levantamento de rios, melhorando o aproveitamento das águas dos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu. Foi, aos poucos, alcançando seu reconhecimento profissional.

Além disso, trabalhou no Plano Hidrelétrico do Paraná.

Competente, chefiou outros técnicos e engenheiros. Gerenciou obras e, mais do que tudo, fez-se respeitada diante de um ambiente preconceituoso e muitas vezes machista.

Hoje, Enedina Alves Marques tem seu nome no Livro do Mérito do Sistema CONFEA/CREA.

Vida pessoal

Entre as décadas de 1950 e 1960, já com a carreira bem organizada, Enedina decidiu viajar com o objetivo de conhecer outras culturas.

O reconhecimento profissional ficou mais evidente a partir de 1961, quando o sociólogo Octávio Ianni entrevistou Enedina como parte de sua pesquisa “Metamorfoses do escravo”.

No ano seguinte, aposentou-se pelo governo do Paraná e recebeu reconhecimento do então governador do estado Ney Braga, que admitiu os trabalhos da engenheira e lhe garantiu renda igual ao salário de um juiz à época.

Solteira e sem filhos, Enedina Alves Marques foi encontrada morta ao 68 anos, vítima de um infarto.

Sua morte foi divulgada de maneira sensacionalista pela imprensa. O jornal Diário Popular, a retratou com uma camisola levantada, o que gerou a fúria de integrantes do Instituto de Engenharia do Paraná.

Para tentar amenizar o caso, depois de sua morte foram publicados diversos artigos que mencionavam seus feitos pela engenharia.

Outros reconhecimentos

Ainda que não seja vista como uma figura tão importante como deveria, segundo especialistas, Enedina chegou a receber alguns outros reconhecimentos depois de sua morte.

Em 1988, uma rua de Curitiba, no bairro Cajuru, recebeu seu nome.

Mais tarde, em 2000, foi reconhecida pelo Memorial à Mulher junto de outras 53 mulheres pioneiras do Brasil.

Já em 2006, foi fundado o Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques, em Maringá (PR).

Sua forte presença na cultura dos cidadãos paranaenses tem, pouco a pouco, se tornado mais evidente em todo o Brasil. Uma esperança para aqueles que não nasceram em “berço de ouro”, mas que têm força para construir o seu próprio.

Gostou deste post? Então conheça mais a profissão de engenharia civil clicando aqui!


Foto do Autor

Autor
Vanessa Farias

Jornalista e Analista de Conteúdo do Buildin.

Comentários