10 setembro 2018

Colaboradores

Especial – Entrevista com Marcelo Nakagawa: professor de Inovação e Empreendedorismo (Insper)

Original de Buildin
Marcelo Nakagawa
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Inovação tem se tornado uma palavra cada vez mais constante no dia a dia de profissionais da Construção Civil. No entanto, muitos não sabem o que significa, de fato, o ato de inovar.

Pelo receio de ficar para trás, pela necessidade ou por um pensamento estratégico, as empresas estão buscando por novas formas de realizarem seus projetos.

  • Mas por onde começar, se inovação ainda é um termo de interpretação confusa?
  • Qual o melhor caminho a seguir?
  • Qual a importância das startups na mudança de mindset da Construção?

A resposta para essas e outras perguntas você descobre nesta entrevista especial que o Buildin fez com Marcelo Nakagawa, professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper, FIA, Fundação Vanzolini e Instituto Butantan nas disciplinas de Inovação e Empreendedorismo.

Nakagawa também é coordenador adjunto da FAPESP nos programas de inovação. É membro do Conselho Consultivo da Anjos do Brasil, do Conselho Executivo de Inovação da Cyrela Commercial Properties. E colunista da revista Pequenas Empresas, Grandes Negócios e do Estadão PME, além de ser colaborador da Exame PME.

Além disso, o professor também será palestrante no Construsummit, evento organizado pelo Buildin, que discute como a tecnologia e a inovação impactam a Indústria da Construção.

Acompanhe!

Buildin – Nakagawa, o que é inovação?

Marcelo Nakagawa Muita gente fala em inovação e cada um tem uma explicação diferente sobre o termo. As pessoas até sabem definir o que é inovação, mas com base no conceito adotado pela empresa onde trabalha.

Diante disso, a palavra precisa ser vista em quatro contextos distintos para ser compreendida:

1 – A inovação no dia a dia das pessoas. Qualquer novidade é inovação.

2 –  Inovação dentro da empresa. Cada empresa precisa definir o que é inovação para si e precisa estabelecer quais são seus indicadores e metas.

3 – Inovação no contexto de captação de recursos por meio do BNDES, CNPQ e Fapesp, por exemplo. As instituições têm conceitos específicos do que é inovação para elas.

4 – Inovação do ponto de vista legal. De acordo com a Lei do Bem, número 11.196/05, inovação tecnológica é a:

“concepção de novo produto ou processo de fabricação, bem como a agregação de novas funcionalidades ou características ao produto ou processo que implique melhorias incrementais e efetivo ganho de qualidade ou produtividade, resultando maior competitividade no mercado”.

Buildin – Qual o papel da inovação na Construção Civil, na sua perspectiva?

Marcelo Nakagawa O papel da inovação na Construção pode ser dividido em três vertentes:

1 – Para as empresas, criar novas vantagens competitivas.

2 – A inovação para o sistema, que é basicamente propor novas soluções, plataformas e processos construtivos.

3 – Inovação pensada no cliente final, que é criar novas e melhores experiências.

Buildin – Qual o melhor caminho para buscar inovação dentro das empresas, tendo em vista que muitos colaboradores e até diretores e gerentes não a valorizam?

Marcelo Nakagawa A inovação entra no contexto da empresa em três situações: a primeira situação é emergencial, que é quando a empresa precisa inovar basicamente por questão de sobrevivência. A segunda é a reação a alguma ameaça, já que muitas vezes se inova porque o concorrente já está fazendo isso. E a terceira situação é a inovação, de fato, sendo vista como uma oportunidade para a empresa se desenvolver, criando vantagens competitivas.

Buildin – Por que a inovação tem se tornado cada vez mais inerente ao sucesso de uma empresa?

Marcelo Nakagawa Por causa dos padrões de competição. Você já não consegue mais competir por custo; não consegue competir por qualidade, nem por ser mais rápido. Também já não consegue competir por customização. E é aí que vem um novo campo de batalha, que é aquele no qual você tem que se diferenciar pela inovação para ter sucesso.

Buildin – Como conciliar a necessidade de inovação com o mindset de uma indústria tão tradicional como a Construção Civil brasileira?

Marcelo Nakagawa Começando a inovar por meio da resolução de problemas de curto prazo, principalmente visando a redução de custos. As empresas têm dificuldade em inovar, porque buscam por inovações disruptivas. Só que isso envolve muito mais risco e o retorno sobre o investimento, se chegar, demora. É melhor começar por inovações mais simples e incrementais, como redução de custo e aumento de produtividade para mostrar à empresa que isso traz retorno.

Inovação na Construção Civil

“As empresas têm dificuldade em inovar, porque buscam por inovações disruptivas. Só que isso envolve muito mais risco e o retorno sobre o investimento, se chegar, demora. É melhor começar por inovações mais simples e incrementais, como redução de custo e aumento de produtividade para mostrar à empresa que isso traz retorno”.

Buildin – A discussão acerca do uso da tecnologia e da inovação dentro de um setor como a Construção tem se mostrado cada vez mais frequente. Exemplos disso são os eventos que abordam o tema, como o Construtalk e o Construsummit, organizados pelo Buildin. Mas é importante lembrar também que investir em tecnologia pode ter um custo alto. Como driblar esse empecilho? Como fazer com que construtoras e incorporadoras enxerguem a inovação como uma oportunidade em vez de um custo?

Marcelo Nakagawa Hoje, quando se fala em inovação, as melhores práticas pressupõem prototipação. As empresas podem prototipar rápido e de forma barata. Se enxergarem a oportunidade e conseguir fazer o protótipo se validar, é esse o caminho. A inovação não é cara necessariamente. Ela pode ser ágil e barata num primeiro momento, por meio de protótipos validados.

Buildin – De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego no Brasil abrange 12,9 milhões de pessoas. Muito disso se deve à crise, mas outra parte está ligada à substituição do colaborador pela máquina. Na sua visão, o que cada profissional deve fazer para não perder seu emprego pela tecnologia?

Marcelo Nakagawa Esse é um processo de percepção que afeta praticamente todas as pessoas, principalmente aquelas que realizam trabalhos repetitivos e padronizados. Essas funções serão rapidamente substituídas. Então, o primeiro desafio é que tenham noção do risco e ameaça que estão sofrendo e buscar informação.

A primeira questão é essa: a consciência. Dada essa consciência, o próximo passo é buscar cursos de capacitação confiáveis, que entreguem aquilo que prometem; buscar associações e cursos de instituições como Senai, Senac e faculdades de primeira linha, que geralmente estão mais preocupadas com a formação.

Além disso, tem um passo intermediário, que é buscar participação em eventos, encontros, bate-papos e também conhecer os hubs de inovação, bastante comuns em cidades como São Paulo. A capacitação não é só eterna. É eterna e urgente.

Inovação na Construção

“A capacitação não é só eterna. É eterna e urgente”.

Buildin – Sobre as startups e mais especificamente as construtechs: como é a relação delas com empresas da Construção Civil? Como o trabalho de uma deve complementar o da outra?

Marcelo Nakagawa O problema é que a Construção Civil é sempre pautada por técnicas muito arraigadas no funcionamento da empresa. É difícil mudar processos e sistemas, muitas vezes porque isso já está ligado a alguma regulamentação.

O grande desafio das duas é prototipar, no sentido de que as empresas tradicionais não precisam acreditar totalmente no que a startup está fazendo, mas devem estar abertas a testar novas soluções. Só isso já quebra o estigma de que tudo é feito de maneira igual há anos.

Assim, o caminho é: as construtechs aprendem com as empresas e as empresas aprendem com as construtechs. Com essa relação, é possível reduzir custos num horizonte de três, quatro, cinco meses, por exemplo.

Buildin – Na sua opinião, quais iniciativas mais têm se destacado no mercado quando se fala de inovação e tecnologia na Construção Civil?

Marcelo Nakagawa São soluções que não estão diretamente ligadas à construção, mas a sistemas de gestão. Processos de planejamento da construção, contabilidade, centro de custos… Existem várias soluções nesse sentido que ajudam as empresas a serem mais eficientes.

O desafio está em implementar novas tecnologias nas construções em si, como o uso de IoT (Internet das Coisas), big data, impressão 3D, que são ferramentas que vão modificar muito como as coisas são feitas.

É claro que, nesse caso, há muito mais barreiras. Mas se as empresas conseguirem mudar sistemas de gestão, por exemplo, já é um bom primeiro passo.

Buildin – Muito se fala das dores supridas pelas startups aos setores tradicionais. Mas quais são as principais dores e desafios das próprias startups?

Marcelo Nakagawa As startups têm vários desafios por si só e quando elas se associam a uma grande empresa os problemas triplicam. As dores mais comuns estão relacionadas à problemas de gestão: há muita dificuldade em gerir um negócio, já que os empreendedores não sabem fazer isso, muitas vezes. O outro desafio é o desenvolvimento da tecnologia. As startups podem conseguir prototipar, mas não conseguem desenvolver o produto final. Outra questão é quando os sócios não se entendem pelos vários obstáculos que passam.

Em paralelo a isso, quando começam a crescer, veem desafios na capacidade de execução e escala do negócio. Isso porque, às vezes, a startup não está preparada para lidar com empresas que possuem milhares de clientes e processos.

Um ponto bastante crítico também é a relação de colaboradores de grandes empresas com empreendedores. Um não sabe lidar com o outro. O nível de profissionalismo é diferente. A empresa tradicional precisa ser mais flexível com o empreendedor.

Buildin – Quais os principais erros que startups, sobretudo aquelas da Construção, cometem na sua trajetória dentro do mercado?

Marcelo Nakagawa Na Construção Civil, existe um desafio muito grande, que é lidar com um tradicionalismo típico do setor. Outros mercados são mais flexíveis às mudanças. Mas como cada projeto envolve muito dinheiro, é natural que o setor não queira inovar tanto, porque o risco é muito alto. É possível entender esse tradicionalismo.

Inovação na Construção - Criatividade

As startups precisam aprender a lidar com isso, porque, se for bater de frente, elas não evoluem. As novas iniciativas devem desenvolver mudanças graduais. Do contrário, elas não terão sucesso nesse mercado. 

Buildin – Com base na sua perspectiva, por que é importante e por que vale a pena investir em startups?

Marcelo Nakagawa Startups são uma alternativa importante para as empresas. Primeiro, porque é muito mais fácil de se obter acesso a inovações quando existe uma relação com elas. Segundo, porque se consegue desenvolver uma cultura empreendedora com essas novas iniciativas.

A parte mais importante é que a grande empresa do setor consegue acessar novos mercados por meio das startups.

Buildin – Para terminar, o que podemos esperar do futuro do empreendedorismo no Brasil?

Marcelo Nakagawa Veremos um processo de profissionalização das startups. Ao longo do tempo, a idade do empreendedor de sucesso foi aumentando. Hoje, 40, 42 anos é a média. A tendência é que tenhamos empreendedores cada vez mais capacitados.

As startups B2B vão superar aquelas B2C. Essas iniciativas também vão nascer com uma visão global, deixando de lado apenas o mercado nacional.

A última tendência é a relação das empresas e startups. O vínculo tende a se tornar um padrão. Esse frenesi que vivemos atualmente vai cair um pouco, mas a ligação das startups às empresas tradicionais vai ser cada vez mais importante.

Gostou da entrevista e ficou interessado em saber mais sobre inovação e tecnologia na Construção Civil? Então, conheça o Construsummit, evento que contará com a presença de Marcelo Nakagawa, um dos maiores especialistas no assunto do Brasil!

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Autor
Vanessa Farias

Jornalista e Analista de Conteúdo do Buildin.

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