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A revolução digital, assim como ocorre em outros setores da economia, pode gerar impactos profundos de inovação na construção civil.

Para que isso aconteça, primeiro é preciso deixar de lado os métodos construtivos artesanais e aderir, de uma vez por todas, a uma forma de produção industrializada. A afirmação é do engenheiro Luiz Henrique Ceotto, consultor sênior da Tecnoeng Consultoria Empresarial e professor visitante na Escola Politécnica da USP.

Mestre em Engenharia de Estruturas pela Escola de Engenharia de São Carlos (USP), Ceotto é um dos profissionais mais reconhecidos e respeitados do setor, tendo atuado por mais de duas décadas em diferentes posições associadas ao projeto imobiliário em empresas como Encol, Inpar e Tishman Speyer.

Em entrevista exclusiva ao Buildin, ele compartilha sua visão sobre os desafios que a construção civil tem pela frente para se transformar. Confira!

Startups na construção

Buildin – Como você vê o movimento atual de multiplicação de startups da construção?

Luiz Henrique Ceotto – As startups são interessantes mas estão mais ligadas a inovações no projeto e no controle de qualidade. Muito pouco está sendo feito nos processos construtivos, embora tudo que necessitamos para dar um salto de produtividade já esteja disponível no Brasil. Simplesmente não usamos e as empresas construtoras têm sido muito pouco interessadas em usar.

Buildin – De que forma você acha que a revolução digital vai impactar a construção civil brasileira?

Luiz Henrique Ceotto – A revolução digital está impactando muito outras indústrias porque elas já são uma indústria. O mesmo não podemos dizer da construção civil de hoje, que ainda é apegada a um amontoado de atividades artesanais. Algum progresso pode acontecer se usarmos os conceitos da revolução digital. Mas só aproveitaremos essas inovações verdadeiramente se fizermos nosso dever de casa e utilizarmos processos industrializados na nossa construção.

“Algum progresso pode acontecer se usarmos os conceitos da revolução digital. Mas só aproveitaremos essas inovações verdadeiramente se fizermos nosso dever de casa e utilizarmos processos industrializados na nossa construção”.

Industrialização e inovação na construção

Buildin – Por que há tanta dificuldade em aderir à industrialização e à inovação na construção?

Luiz Henrique Ceotto – Temos várias barreiras no Brasil que tem impedido a construção evoluir de forma rápida. Essas barreiras são culturais, de visão estratégica das empresas, tributárias, de capacitação setorial, estruturais e financeiras. As que considero mais importantes são as tributárias e as financeiras.

Buildin – Você poderia falar mais sobre elas?

Luiz Henrique Ceotto – Os impostos que incidem sobre produtos e sistemas mais industrializados são maiores do que em processos artesanais feitos em obra. Isso encarece esses produtos entre 12% e 16%, dependendo dos materiais envolvidos. Para piorar, exceto nos programas “Minha Casa Minha Vida”, os bancos não financiam mais de 80% do valor do imóvel. Como não há poupança programada no Brasil, o cliente tem que pagar pelo menos 20% do valor da obra durante a construção. As construtoras/incorporadoras precisam alongar muito o prazo de obra para que o seu cliente possa pagar. Essa realidade é um desincentivo profundo à adoção de processos construtivos de alta produtividade e alta velocidade.

“Os impostos que incidem sobre produtos e sistemas mais industrializados são maiores do que em processos artesanais feitos em obra. Isso encarece esses produtos entre 12% e 16% dependendo dos materiais envolvidos”.

Tecnologia para construção

Buildin – Você comentou que já há tecnologia disponível para o setor se transformar. Poderia citar quais você acha mais importantes?

Luiz Henrique Ceotto – Refiro-me principalmente às tecnologias de construção seca. São os painéis pré-moldados de fachada, o drywall, a estrutura metálica, etc. Nós já temos toda essa tecnologia à nossa disposição. O problema é que muitos não sabem como juntar tudo isso. Para você ter uma ideia, o pessoal não sabe calcular custo. Eles acham que tudo é caro. O pessoal quer comparar custo de metro quadrado de alvenaria com metro quadrado de drywall. Essa conta nunca vai fechar porque ela está sendo feita de forma errada! É preciso levar em consideração o prazo, os custos fixos da empresa e a taxa interna de retorno, por exemplo.

Buildin – E a questão cultural? Ainda há muito conservadorismo nas nossas empresas de Real Estate para adotar a inovação na construção?

Luiz Henrique Ceotto  – Um problema sério é que as empresas do setor, de modo geral, não consideram a tecnologia como uma ferramenta para viabilizar o seu planejamento estratégico. Aqui a primeira coisa que se pensa é empilhar tijolo. A tecnologia nunca é cogitada e tudo é feito sempre da mesma maneira. Outro aspecto cultural negativo é que as empresas não conversam. Para termos a industrialização da construção, a cadeia de fornecedores precisa se falar, porque um tem que agregar valor para o outro. A gente ainda não pensa nisso. No Brasil, a interação entre o fornecedor e o cliente é uma relação de perde ganha. Só se discute preço e forma de pagamento. Todos perdemos com isso.

“No Brasil, a interação entre o fornecedor e o cliente é uma relação de perde ganha. Só se discute preço e forma de pagamento. Todos perdemos com isso”.

Buildin – Frequentemente vemos engenheiros e construtores atribuindo à baixa qualidade da mão de obra problemas como baixa produtividade no canteiro e patologias construtivas. Você acha que a revolução digital tem resposta para esses problemas e para estimular a inovação na construção?

Luiz Henrique Ceotto – Muito pouco. A baixa produtividade e a variabilidade da qualidade estão associadas à construção artesanal. A revolução digital só pode atuar em processos industriais. Então, primeiro temos que industrializar. No processo de desenvolvimento de um setor não existem atalhos fáceis, infelizmente.

Manufatura aditiva

Buildin – Em especial sobre a manufatura aditiva. Qual é o potencial de aplicação dessa inovação na construção?

Luiz Henrique Ceotto – Acho pouco provável supor que usaremos nos próximos dez anos impressoras 3D e manufatura aditiva para construirmos diretamente casas e edifícios. É mais sensato supor que poderemos usá-la para construir protótipos em fase de concepção ou para fabricação de moldes ou componentes que serão montados por trabalhadores especializados na obra. E isso só acontecerá se industrializarmos componentes e pararmos de pensar em empilhar tijolos. Acho que levará dezenas de anos até que possamos ter impressoras 3D ou robôs construindo de forma autônoma um edifício.

Buildin – Você está estudando inovação na construção no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Poderia comentar como vem sendo essa experiência? Você nota um gap muito grande entre o que conteúdo que é discutido no curso e a realidade da construção civil brasileira?

Luiz Henrique Ceotto – Estou terminando um curso de pós-graduação de liderança e inovação com dois anos de duração. A experiência está sendo maravilhosa. O gap é enorme, principalmente no que se refere à visão dos líderes industriais sobre como os EUA vão manter a liderança com relação à produtividade e à criatividade em relação ao resto do mundo. Infelizmente o Brasil está ainda discutindo conceitos das décadas de 1940 e 1950, na política, na economia e na gestão das empresas. Precisamos encontrar um meio de sair desse círculo vicioso.

Buildin – Na sua visão, o que é preciso ser feito para fomentar a inovação na construção?

Luiz Henrique Ceotto – Não existe desenvolvimento tecnológico e inovação sem liderança. O problema é que o Brasil é muito pobre nesse quesito. As pessoas confundem liderança com fama. Um líder tem que ter algumas características. A principal delas é gerar uma ambição coletiva. A segunda é mostrar caminhos. E também tem que ser um grande negociador. Há pouca gente no nosso setor com esse perfil ou realmente preocupado com isso.

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