Uma senha sera enviada para seu e-mail

O termo Fast Construction (construção rápida) tem sido associado há décadas a sistemas construtivos industrializados.

Mas será que Fast Construction se resume a isso?

A partir da década de 90 iniciou-se um processo de conversão das organizações para uma configuração mais horizontal. Ou seja, as empresas passaram a ter maior foco em seu core business. Assim, isso levou as empresas a optar pela terceirização das atividades secundárias.

Os principais objetivos foram:

• Transformar custos fixos em variáveis;
• Aumentar a eficácia operacional;
• Explorar o conhecimento de especialistas em diversas modalidades: projetistas, consultores, fabricantes de materiais e prestadores de serviços.

Gerenciamento e controle de prazos

Assim, para viabilizar essa transformação na gestão da cadeia produtiva, passou a ser fundamental manter ênfase no gerenciamento e controle de prazos, de custos e da qualidade.
Então, frente a essa abordagem mais moderna, o termo Fast Construction passou a ser compreendido como um meio de trabalhar a partir de uma rota rápida. Ou seja, compactando e acelerando o processo construtivo.

Logo, podemos definir Fast Construction como uma metodologia de gestão. Ou seja, que objetiva racionalizar e trabalhar concomitantemente todas as etapas do processo construtivo. Assim, vai desde a concepção, estudo de viabilidade, localização do terreno (ou do imóvel). Passa pelo projeto legal e licenciamento, planejamento, projeto e detalhamento. Envolve, ainda, logística e suprimento. Mais que isso, o gerenciamento da execução de um empreendimento ou de um lote de ações simultâneas que fazem parte de um mesmo projeto.

Benefícios da metodologia Fast Construction

Assim, face a tudo isso, dentre os benefícios proporcionados pela metodologia Fast Construction estão:

  • Padronização e racionalização dos processos de concepção e construção. Assim evitando desorganização e sobrecarga no uso de recursos em atividades não essenciais ao projeto;
  • Rapidez, eficácia e economia de escala gerados pela otimização dos processos e do uso dos recursos;
  • Desempenho e qualidade previsíveis como consequência de padronização e racionalização. Logo, conferindo maior confiabilidade aos processos construtivos e de gestão dos empreendimentos.

Dessa forma, a construção passa a ser gerida como uma linha de produção industrial. Ou seja, beneficiada pela simultaneidade dos processos, simplificação, padronização e repetitividade. Assim, o tempo necessário para o projeto e execução passa a ser apenas uma fração do que seriam consumidos em comparação a um processo convencional.

Tempo otimizado

Então, a redução de tempo pode ser realizada de duas maneiras.

Uma delas é trabalhando mais rapidamente. Ou seja, com produtividade crescente, com elevada eficácia e sem folga de tempo entre as atividades.

Outra é por compressão de tempo. Ou seja, sobrepondo e integrando atividades, racionalizando processos e realizando trabalhos simultâneos.

Para a eficácia da Fast Construction, são fatores críticos de sucesso os processos, as ferramentas e as pessoas. Quando se trata de processos é relevante trabalhar o seu mapeamento e redesenho. Logo, objetivando eliminação de etapas, simplificação e padronização.

Um exemplo disso é o emprego da EAV (Engenharia e Analise do Valor), priorizando a redução de custos e a exploração de oportunidades de melhorias.

Nesse processo deve-se refletir sobre algumas questões básicas:

Qual é o conceito básico? Irá funcionar? Pode ser realizado? Satisfaz as necessidades do cliente? É consistente? Proporciona economia?

Nenhuma modalidade competente de gerenciamento prevalece sem enfrentar seus desafios. Na Fast Construction isso não é uma exceção. Os principais desafios estão relacionados a:

  • Logística de suprimentos;
  • Forma de gerenciamento dos projetos e dos recursos;
  • Domínio e gestão do conhecimento técnico;
  • Conhecimento do cliente.

Sobre esse último fator, é importante ter foco concomitante no cliente e no usuário final. Ou seja, buscando compreender de forma clara suas necessidades. Tudo para oferecer valor à edificação ou ao empreendimento objeto do trabalho em questão.

Abordagem da Fast Construction

A Fast Construction pode compreender todo o ciclo de vida de um empreendimento. Isso está demonstrado de forma simplificada na figura 1.

Não há um modelo único de operação. Porém, os fluxos de processos e comunicação devem ser configurados de modo que contemplem o atendimento aos objetivos estratégicos do cliente em seu segmento de negócio. Além disso, contemplando a identificação e atendimento a todas as suas necessidades.

Num processo de construção tradicional, as várias etapas ocorrem sequencialmente. No caso de um processo de construção que utiliza metodologia Fast Construction, é possível simplificar os processos. Ou seja, reduzir interfaces, racionalizar e sobrepor etapas, com grande economia de tempo.

Confira o exemplo da figura 2. Para uma agência bancaria (ou para qualquer cliente no setor de redes de varejo) a data-alvo para a inauguração é sempre crítica. Assim, objetivando a redução do prazo de retorno do investimento e o argumento giro sobre os ativos. Portanto, essa compactação do cronograma gera muito valor agregado.

Feitas essas considerações, esse conceito se aplica muito bem às redes de varejo. Ou seja, distribuição de combustíveis, setor financeiro, de fast food, operadoras de telecomunicações e lojas de departamentos, entre outras. Todas essas necessitam impor alta velocidade à sua expansão, com volume massivo de ações simultâneas, geralmente com grande dispersão geográfica.

Fast Construction Paulo Oliveira 01

Foco em gestão e processos

Como pôde ser visto, a aplicação de conceito de Fast Construction requer processo de gestão e projetos precisos e confiáveis. Nesse aspecto, é importantíssimo que se tenha uma linha de referência das boas práticas de gestão. Ou seja, consolidados pelo PMI (Project Management Institute).

O PMBOK (Project Management Body Of Knowledge) traz o agrupamento desses conhecimentos, processos, metodologias e ferramentas em dez áreas de conhecimento:

  1. Escopo;
  2. Riscos;
  3. Qualidade;
  4. Comunicação;
  5. Tempo;
  6. RH (Recursos Humanos);
  7. Custo;
  8. Aquisições;
  9. Partes interessadas; e
  10. Integração.

Independentemente da metodologia, o processo de gestão de projetos deve ser criterioso. Ou seja, identificando todas as partes interessadas – consultores e assessores do cliente, fornecedores, órgãos regulamentadores e metas para aferir seu cumprimento.

São fundamentais para o sucesso das ações o uso de ferramentas competentes de gestão integrada e o trabalho em ambiente colaborativo. Sendo assim, torna-se necessário um sistema eficaz de compartilhamento de informações em tempo real e de comunicação eficiente.

Unindo, por exemplos, os smartphones e tablets em obras com um sistema informatizado de gestão de projetos. Isso torna possível a integração obra-escritório-interfaces-cliente. Logo, agilizando a consulta a informação e ao acervo técnico remotamente. Isso permite muita segurança e rapidez na tomada de decisões, além de importantes ganhos de produtividade.

Fast Construction Paulo Oliveira 02

Deve-se operar, ainda, sob um sistema rígido de garantia da qualidade (por exemplo, o ISO 9001). Assim evitando retrabalho bem como seus custos correspondentes e garantindo a implementação do ciclo PDCA. Ou seja, Plan (planeje), Do (faça), Check (verifique), Act (haja). Isso inclui a verificação dos resultados e aplicação de ações corretivas e preventivas para proporcionar a melhoria contínua dos processos.

Gestão logística

O tipo de negócio do nosso exemplo tem como característica atuação com grande volume de ações concomitantes e com grande abrangência geográfica. Logo, passa a ser um dos fatores críticos de sucesso a boa gestão de logística. Ou seja, tornando o fluxo de suprimentos mais ágil e enxuto.

A excelência dos processos de logística depende da aplicação constante de processos de recrutamento, seleção, e treinamento de gestores. Mais do que isso, da avaliação, qualificação e homologação de fornecedores e prestadores de serviços. Por isso a logística deve ser vista como parte da estratégia deste tipo de atividade.

Conceitos, como o ‘’lote econômico ‘’ e a ‘’logística reversa’’ são algumas das fontes de vantagens competitivas dentro do Fast Construction. E sempre aliadas às alianças estratégicas com fornecedores e prestadores de serviços e à sincronização da cadeira produtiva.

Semelhante a um processo industrial, um projeto de Fast Construction deve levar em consideração questões relacionas à produção (logística interna) ou a cadeia de suprimentos (logística externa).

É relevante comentar um artigo publicado na Revista Mundo Logística (edição janeiro/fevereiro de 2008), de Francisco Ferraes Neto. O tema do artigo remete ao ‘’alinhamento das estratégias competitivas’’ com enfoque logístico. No texto se apresentam as etapas e a evolução do papel da logística e da produção em uma organização. Segundo a interpretação dos autores , pode-se dividir essa evolução em quatro etapas:

1. Pré-logística e produção tradicional

Nessa fase, não há visão integrada das operações e a logística é vista como geradora de cistos. Do lado produtivo, a velocidade e flexibilidade para adaptação a mudanças são baixas em decorrência de altos volumes de estoque e visão de produção ‘’ empurrada’’;

2. Logística com foco operacional e empresa operando just-in-time

Já começa a haver certa integração entre os processos. A logística é vista como facilitadora operacional. Ou seja, capaz de reduzir custos internos de transação (de informações e materiais). Produtivamente, há o interesse na manutenção de baixos estoques, com melhoria na flexibilidade, há mudanças e foco em redução de custos fixos;

3. Logística estratégica e produção enxuta

Nessa etapa, a integração passa a ser feita interna e externamente à organização, por meio de parcerias. O foco torna-se sistêmico. Assim, a logística é prevista como geradora de receita e não apenas redutora de custos. Na visão da produtividade, aprofunda-se na questão da agilidade e flexibilidade e redução de estoques. No entanto, agora com uma perspectiva de agregação de valor a toda cadeia produtiva;

4. Logística como estratégia de negócio e produção enxuta com just-in-time II

A integração nesse ponto transcende as parcerias estratégias, com a atuação de equipes multidisciplinares entre as empresas parceiras. Assim, o enfoque logístico está na sincronização da cadeia e aumento da visibilidade de todos os elos. Sempre visando contrabalancear o nível de complexidade das operações. Logo, a logística torna-se fonte de lucratividade e vantagem competitiva da empresa. Assim, passa a ser considerada na definição das estratégias de negócios. Em termos de produção, observa-se a ênfase ainda mais profunda na redução de estoques em lotes unitários. Ou seja, de modo a permitir a customização máxima de produtos, possibilidade de entregas rápidas por meio das parcerias com fornecedores e geração de lucro.

Posicionamento dos negócios sob a metodologia Fast Construction

A experiência dos autores com Fast Construction posiciona este negócio no máximo nível de maturidade da escala citada (nível 4). Ou seja: ‘’Logística como Estratégia de Negócio e Produção Enxuta com just-in-time II’’.

É o mesmo posicionamento de empresas como Dell e Walmart, que têm complexidade logística e grande amplitude em suas cadeias de suprimentos. A operação nesse nível gera resultados expressivos para organizações que atuam neste modelo. Também é benéfica à cadeia produtiva de engenharia e construção. Na tabela ‘’evolução da logística e da produção nas organizações’’ estão expressos os níveis de maturidade citados a partir do artigo mencionado anteriormente.

Frente a tais características da Fast Construction fica mais claro apontar seus benefícios e vantagens em comparação aos métodos tradicionais de construção:

  • A redução da ociosidade, de riscos de implementação do projeto devido ao aumento de eficácia e confiabilidade dos processos construtivos. Além disso, a redução de imprevisibilidade gera, em seu conjunto, aumento de produtividade;
  • A possibilidade de execução de projeto de maior nível de complexidade. A simplificação dos processos resulta em menos necessidade de planos de contingência e redução de desperdícios. Assim, somados ao aumento na eficiência dos processos do cliente, resultam na melhoria da qualidade do produto final, com menos retrabalho.

Satisfação do cliente

A compreensão do valor dessas vantagens pelo cliente está vinculada à sua satisfação, já que permitem o alcance dos objetivos e metas estratégicas para seu negócio.

Fast Construction Paulo Oliveira 04

A importância desse novo conceito de Fast Construction pode ainda ser vislumbrada pela perspectiva do contexto brasileiro, um país de dimensões continentais, com 8,5 milhões de km2.

Vamos imaginar um cenário econômico mais favorável às principais redes varejistas. Em todos os setores de atividades, estas têm no cerne de suas estratégias projetos de expansão agressivos. E não somente nas principais capitais, mas buscando pulverização e conquista de espaço em cidades de médio e pequeno porte.

Assim, a velocidade imposta pelo processo de expansão é elevada. Mais que isso, as redes têm necessidade de transferir de forma adequada padrões e identidade visual para essas novas lojas, agências e pontos de atendimento. E precisam ter certeza do cumprimento de orçamentos, prazos muito curtos para inauguração e escopo contratado.

Dentro desse contexto, as soluções propostas pela Fast Construction são muito apropriadas. Afinal, garantem vantagens expressivas sobre as metodologias convencionais.

Conclusão

A definição de Fast Construction vem se moldando através do tempo para atender demandas crescentes impostas pelo mercado. Ou seja, consiste na gestão de muitas ações em prazos curtos com dispersão geográfica entre si.

Assim, essa metodologia preenche mais que satisfatoriamente necessidades das atividades de expansão das grandes redes de varejo. Afinal, objetivam redução de custos de processos por meio da racionalização, ganhos de escala e aumento da produtividade.

Ou seja, compactando prazo para início da operação dos pontos de venda ou postos de atendimento e colaborando para cumprimento e melhoria de metas financeiras . Logo, requer máxima eficácia em gestão obtida por planejamento confiável e controle de ações preciso.

Para tanto, empregam-se boas práticas em gerenciamento de projetos conciliando atendimento de prazo e custo apoiadas por sistema adequado de garantia e controle da qualidade. Consequentemente, são fundamentais a excelência na gestão da logística de suprimentos e a utilização de ferramentas que facilitem a integração de processos. Ou seja, disponibilizando dados, relatórios e informações em tempo real.

Cumpre complementar registrando que nada substitui competências e talento especialmente requeridos das pessoas que corajosamente têm atuado e colaborado para desenvolvimento desta área de conhecimento da engenharia e da indústria da construção.

Fast Construction, compreendendo o conceito e a abordagem explorados neste texto, ainda é um tema bastante recente e em pleno desenvolvimento.

(Artigo publicado pela revista Construção Mercado (Editora Pini), N. 82, em maio de 2008)

Referências

Construction Planning, Programming and Control. Cooke, Brian; Williams, Peter. 2a Edição. Oxford, UK; Maiden, MA: Blackwell Publishing, 2004. P. 261 – 263.

Fast-tracking on the rise in sector. Fries, Barry R. Real Estate. Weekly, Estados Unidos, nov. 2007. Acesso em: 26/02/2008.

The ups and downs of fast-track construction. Jonnes, Reggie. 2001. Acesso em: 04/03/2008.

Improving materials management practices on Fast-Track construction projects. Kasim, N. B.; Anumba, C. J.; Dainty, A. R. J. 2005. in: Khosrowshahi, F. (Ed.), 21a Annual Arcom Conference, 7-9 September 2005, Soas, University of London. Association of Researchers in Construction Management, Vol. 2,793-802. Acesso em: 27/02/2008.

Fast-track construction becomes the norm. Knecht, Barbara. 2008. Acesso em: 03/03/2008.

Alinhamento das Estratégias Competitivas e Logísticas em uma Cadeia de Suprimentos. Neto, Francisco Ferraes. Revista Mundo Logística, Rio de janeiro, ano 1, N° 02, P. 36 – 43, jan/fev 2008.

Fast-Track Construction: is it too good to be true? Can it really deliver? 0’Leary, Arthur; Faia; MRIAI. 2008. Acesso em: 03/03/2008.

PMBOK Guide: A Guide to t h e Project Management Body of Knowledge. Project Management institute; 2000.

Top 10 Fast-Tracking Tips. Streu, Norman D.; Hirst, Christopher. 2005. Acesso em: 26/02/2008.

Coordination problems in Fast-Track commercial construction. White, Andrea Dickenson. 1980. Dissertação (Master of Science in Civil Engineering)-S.B.C.E. Massachussets institute of Technology, Cambridge, Massachussets. Acesso em: 28/02/2008 08.

Autores

#engenharia #construção #engenhariacivil #engenheiro #prediosindustriais #construçãoindustrial #projectmanagement #constructability #fastconstruction #construçãomodular #engenhariaeanalisedevalor #preconstrução #futurism