30 outubro 2018

Colaboradores

Fast Construction: como racionalizar e trabalhar simultaneamente todas as etapas do processo construtivo

Original de Buildin
Fast construction
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O termo Fast Construction (construção rápida) tem sido associado há décadas a sistemas construtivos industrializados. Mas será que Fast Construction se resume a isso?
A partir da década de 90 iniciou-se um processo de conversão das organizações para uma configuração mais horizontal. As empresas passaram a ter maior foco em seu core business, o que levou as empresas a optar pela terceirização das atividades secundárias.

Os principais objetivos foram:

• Transformar custos fixos em variáveis;
• Aumentar a eficácia operacional;
• Explorar o conhecimento de especialistas em diversas modalidades: projetistas, consultores, fabricantes de materiais e prestadores de serviços.

Para viabilizar essa transformação na gestão da cadeia produtiva, passou a ser fundamental manter ênfase no gerenciamento e controle de prazos, de custos e da qualidade.
Frente a essa abordagem mais moderna, o termo Fast Construction passou a ser compreendido como um meio de trabalhar a partir de uma rota rápida, direta, compactando e acelerando o processo construtivo.

Podemos então definir Fast Construction como uma metodologia de gestão que objetiva racionalizar e trabalhar concomitantemente todas as etapas do processo construtivo, desde a concepção, estudo de viabilidade, localização do terreno (ou do imóvel), projeto legal e licenciamento, planejamento, projeto e detalhamento, logística e suprimento e, ainda, o gerenciamento da execução de um empreendimento ou de um lote de ações simultâneas que fazem parte de um mesmo projeto.

Independentemente do tipo de sistema construtivo utilizado, os benefícios da metodologia Fast Construction são:

• Padronização e racionalização dos processos de concepção e construção, evitando desorganização e sobrecarga no uso de recursos em atividades não essenciais ao projeto;
• Rapidez, eficácia e economia de escala, gerados pela otimização dos processos e do uso dos recursos;
• Desempenho e qualidade previsíveis, como consequência de padronização e racionalização, conferindo maior confiabilidade aos processos construtivos e de gestão dos empreendimentos.

A construção passa a ser gerida como uma linha de produção industrial em que, por meio de simultaneidade dos processos, da sua simplificação, padronização e repetitividade, o tempo necessário para o projeto e execução passa a ser apenas uma fração do que seriam consumidos em comparação a um processo convencional.

Quando se fala em redução de tempo, ela pode ser realizada trabalhando-se mais rapidamente, com produtividade crescente, com elevada eficácia e sem folga de tempo entre as atividades; e por compressão de tempo, sobrepondo e integrando atividades racionalizando processos e realizando trabalho simultâneo.

Para a eficácia da Fast Construction, são fatores críticos de sucesso os processos, as ferramentas e as pessoas. Quando se trata de processos é relevante trabalhar o seu mapeamento e redesenho, objetivando a eliminação de etapas, a simplificação e padronização. Um exemplo disso é o emprego da EAV (Engenharia e Analise do Valor), priorizando a redução de custos e a exploração de oportunidades de melhorias.

Nesse processo deve-se refletir sobre algumas questões básicas: Qual é o conceito básico? Irá funcionar? Pode ser realizado? Satisfaz as necessidades do cliente? É consistente? Proporciona economia?

Nenhuma modalidade competente de gerenciamento prevalece sem enfrentar seus desafios. Na Fast Construction, isso não é uma exceção. Os principais desafios estão relacionados a logística de suprimentos, à forma de gerenciamento dos projetos e dos recursos, e ainda, o domínio e a gestão do conhecimento técnico e também sobre o conhecimento do cliente. Sobre esse último fator, é importante ter foco concomitante no cliente e no usuário final, buscando compreender de forma clara suas necessidades e oferecer valor à edificação ou ao empreendimento que está sendo objeto de trabalho em questão.

Abordagem

A Fast Construction pode compreender todo o ciclo de vida de um empreendimento, o que está demonstrado de forma simplificada na figura 1.

Não há um modelo único de operação. Porém, o fluxo de processos e comunicação devem ser configurados de modo que o contemplem o atendimento aos objetivos estratégicos do cliente em seu segmento de negócio, além da identificação e atendimento a todas as suas necessidades.

Num processo de construção tradicional, as várias etapas ocorrem sequencialmente. No caso de um processo de construção eu utiliza metodologia Fast Construction, é possível simplificar os processos, reduzir interfaces, racionalizar e sobrepor etapas, com grande economia de tempo. Como exemplificado na figura2, para uma agência bancaria (ou para qualquer cliente no setor de redes de varejo) a data-alvo para a inauguração é sempre crítica, objetivando a redução do prazo de retorno do investimento e o argumento giro sobre os ativos. Portanto, essa compactação do cronograma é um grande valor agregado.

Feitas essas considerações, esse conceito se aplica muito bem as redes de varejo (distribuição de combustíveis, setor financeiro, de fast food, operadoras de telecomunicações e lojas de departamentos, entre outras), que necessitam impor uma alta velocidade à sua expansão, com um volume massivo de ações simultâneas, geralmente com grande dispersão geográfica.

Fast construction

Como pôde ser visto, a aplicação de conceito de Fast Construction requer processo de gestão e projetos – considerando como um todo – precisos e confiáveis. Nesse aspecto é importantíssimo que se tenha uma linha de referência das boas práticas de gestão, consolidados pelo PMI (Project Management Institute), órgão internacional que tem por objetivo reunir, disseminar e zelar pelo conjunto de conhecimentos em gestão de projetos. O PMBOK (Project Management Body Of Knowledge) traz o agrupamento desses conhecimentos, processos, metodologias e ferramentas em dez áreas de conhecimento: escopo, riscos, qualidade, comunicação, tempo, RH (Recursos Humanos), custo, aquisições, partes interessadas e integração.

Independentemente da metodologia, o processo de gestão de projetos deve ser criterioso, identificando todas as partes interessadas – consultores e assessores do cliente, fornecedores, órgãos regulamentadores e metas para aferir seu cumprimento.

São fundamentais para o sucesso das ações o uso de ferramentas competentes de gestão integrada e o trabalho em ambiente colaborativo. Sendo assim, torna-se necessário um sistema eficaz de compartilhamento de informações em tempo real e de comunicação eficiente. Unindo, por exemplos, os smartphones e tablets em obras com um sistema informatizado de gestão de projetos, é possível a integração obra-escritório-interfaces-cliente, agilizando a consulta a informação e ao acervo técnico remotamente. Isso permite muita segurança e rapidez na tomada de decisões, além de importantes ganhos de produtividade.

Metodologia convencional e fast construction

Aspectos fundamentais ao fast construction

Deve-se operar, ainda, sob um sistema rígido de garantia da qualidade (por exemplo, o ISO 9001) evitando retrabalho, bem como seus custos correspondentes e garantindo a implementação do ciclo PDCA – Plan (planeje), Do (faça), Check (verifique), Act (haja) – que inclui a verificação dos resultados e aplicação de ações corretivas e preventivas para proporcionar a melhoria contínua dos processos.

Gestão logística

Considerando a característica desse tipo de negócio – atuação em grande volume de ações concomitantes e com grande abrangência geográfica – passa a ser um dos fatores críticos de sucesso a boa gestão de logística, tornando o fluxo de suprimentos mais ágil e enxuto. A excelência dos processos de logística dependendo da aplicação constante de processos de recrutamento, seleção, e treinamento de gestores, e na avaliação, qualificação e homologação de fornecedores e prestadores de serviços. Por isso a logística deve ser vista como parte da estratégia deste tipo de atividade.

Conceitos, como o ‘’lote econômico ‘’ e a ‘’logística reversa’’ são algumas das fontes de vantagens competitivas dentro do Fast Construction, aliadas às alianças estratégicas com fornecedores e prestadores de serviços e à sincronização da cadeira produtiva. Semelhante a um processo industrial, um projeto de Fast Construction deve levar em consideração questões relacionas à produção (logística interna) ou a cadeia de suprimentos (logística externa).

É relevante comentar um artigo publicado na Revista Mundo Logística (edição janeiro/fevereiro de 2008), de Francisco Ferraes Neto, cujo assunto remete ao ‘’alinhamento das estratégias competitivas’’ com enfoque logístico, em que se apresentam etapas e a evolução do papel da logística e da produção em uma organização. Segundo a interpretação dos autores sobre esse artigo, pode-se dividir essa evolução em quatro etapas:

1. Pré-logística e produção tradicional – nessa fase, não há visão integrada das operações e a logística é vista como geradora de cistos. Do lado produtivo, a velocidade e flexibilidade para adaptação a mudanças são baixas em decorrência de altos volumes de estoque e visão de produção ‘’ empurrada’’;

2. Logística com foco operacional e empresa operando just-in-time: já começa a haver certa integração entre os processos, e a logística é vista como facilitadora operacional, reduzindo custos internos de transação (de informações e materiais). Produtivamente há o interesse na manutenção de baixos estoques, com melhoria na flexibilidade, há mudanças e foco em redução de custos fixos;

3. Logística estratégica e produção enxuta: nessa etapa, a integração passa a ser feita interna e externamente à organização, por meio de parcerias. O foco torna-se sistêmico, e a logística é prevista como geradora de receita, e não apenas redutora de custos. Na visão da produtividade, aprofunda-se na questão da agilidade e flexibilidade e redução de estoques, mas agora com uma perspectiva de agregação de valor a toda cadeia produtiva;

4. Logística como estratégia de negócio e produção enxuta com just-in-time II: a integração nesse ponto transcende as parcerias estratégias, com a atuação de equipes multidisciplinares entre as empresas parceiras. O enfoque logístico está na sincronização da cadeia e aumento da visibilidade de todos os elos para contrabalancear o nível de complexidade das operações. A logística torna-se fonte de lucratividade e vantagem competitiva da empresa e passa a ser considerada na definição das estratégias de negócios. Em termos de produção, observa-se a ênfase ainda mais profunda na redução de estoques em lotes unitários, de modo a permitir a customização máxima de produtos, possibilidade de entregas rápidas por meio das parcerias com fornecedores e geração de lucro.

A experiência dos autores, em sua atuação na atividade de Fast Construction, posiciona este negócio no máximo nível de maturidade da escala citada (nível 4), ou seja: ‘’Logística como Estratégia de Negócio e Produção Enxuta com just-in-time II’’. Esse posicionamento é o mesmo de empresas como Dell computadores e Wall Mart, que têm complexidade logística e grande amplitude em suas respectivas cadeias de suprimentos. A operação nesse nível tem gerado resultados expressivos para as organizações que atuam neste modelo e patamar e também para os elos da cadeia produtiva de engenharia e construção, especificamente sob a metodologia que desenvolvida de forma pioneira, na experiência doas autores, em Fast Construction. Na tabela ‘’evolução da logística e da produção nas organizações’’ estão expressos os níveis de maturidade citados, a partir do artigo mencionado anteriormente.

Frente a tais características da Fast Construction fica mais claro apontar seus benefícios e vantagens em comparação aos métodos tradicionais de construção:

  • A redução da ociosidade, de riscos de implementação do projeto devido ao aumento de eficácia e confiabilidade dos processos construtivos, além da redução de imprevisibilidade geram, em seu conjunto, um aumento de produtividade;

  • A possibilidade de execução de projeto de maior nível de complexibilidade. A simplificação dos processos de resulta em menos necessidade de planos de contingência e a redução de desperdícios, somados ao aumento na eficiência dos processos do cliente, resultam na melhoria da qualidade do produto final, com menos retrabalho.

A compreensão do valor dessas vantagens pelo cliente está vinculada a sua satisfação, já que permitem o alcance dos objetivos e metas estratégicas para seu negócio.

Produção nas organizações

A importância desse novo conceito de Fast Construction pode ainda ser vislumbrada pela perspectiva do contexto brasileiro, um país de dimensões continentais, com 8,5 milhões de km2. Com um cenário econômico mais favorável às principais redes varejistas, em todos os setores de atividades, têm no cerne de suas estratégias projetos de expansão agressivos não somente nas principais capitais, mas buscando a pulverização e a conquista de espaço em cidades de médio e também de pequeno porte. A velocidade imposta por esse processo de expansão é elevada, e as redes têm necessidade de transferir de forma adequada os seus padrões e identidade visual para essas novas lojas, agências e pontos de atendimento, com a certeza do cumprimento de seus orçamentos, de prazos muito curtos para a inauguração e do escopo contratado. Dentro desse contexto, as soluções propostas pela Fast Construction são muito apropriadas, garantindo vantagens expressivas sobre as metodologias convencionais.

Conclusão

Fast Construction é um conceito cuja definição vem se moldando através do tempo para atender uma demanda crescente e imposta pelo mercado, que consiste na gestão simultânea de grande volume de ações cm prazos curtos, que podem apresentar ainda grande dispersão geográfica entre si. Essa metodologia vem preenchendo mais do que satisfatoriamente as necessidades das atividades de expansão e construção das grandes redes de varejo e de empreendimentos especiais, que objetivam cada vez mais a redução de custos de seus processos, sobretudo por meio da racionalização, dos ganhos de escala e do aumento dá produtividade, compactando o prazo para o início da operação dos pontos de venda ou postos de atendimento, colaborando para o cumprimento c melhoria das metas financeiras dessas redes e empreendimentos. O atendimento a essa demanda requer a máxima eficácia em gestão, obtida por um planejamento confiável e um controle de ações preciso. Empregam-se, para isso, boas práticas em gerenciamento de projetos que conciliam o atendimento de prazo e custo, apoiadas por um sistema adequado de garantia e controle da qualidade. São fundamentais a excelência na gestão da logística de suprimentos e a utilização de ferramentas tais como dispositivos móveis e sistemas de informação que facilitem a integração de todos os processos, disponibilizando dados, relatórios e informações sobre as ações em tempo real. Cumpre complementar registrando que nada, porém, substitui as competências e o talento especialmente requerido das pessoas que corajosamente têm atuado e colaborado para o desenvolvimento desta área de conhecimento da engenharia e da indústria da construção. Fast Construction, compreendendo o conceito e a abordagem explorados neste texto, ainda são temas bastante recentes e em pleno desenvolvimento, motivo pelo qual ainda há pouca literatura disponível a respeito.

(Artigo publicado pela revista Construção Mercado (Editora Pini), N. 82, em maio de 2008)

REFERÊNCIAS

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Autores

  • Paulo Oliveira – Engenheiro Civil, Diretor Executivo/CEO da Mutual Engenharia e Construções Ltda
  • Camila Alcantara Amadeo Real, Arquiteta, Gerente de Arquitetura e Projetos Bradesco – BSP Empreendimentos Imobiliários
  • Mário Sérgio de Freitas Almeida, Arquiteto, Coordenador de Obras na Método Engenharia
  • Nan Huei Chang Yamamoto, Administradora de Empresas, Associada na Orsini Consultoria Ltda

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Autor
Paulo Oliveira

Engenheiro Civil, com MBA Executivo Internacional e Especialização em Gestão Estratégica pela FIA/USP. Project Manager Professional (PMP) pelo Project Management Institute (PMI). Palestrante em congressos nacionais e internacionais, com mais de 50 trabalhos publicados. Professor do Curso de MBA Profissional do IPT.

Diretor Executivo / CEO em empresas nacionais e multinacionais no setor de Engenharia, Construção e Incorporação e na Indústria de Produtos para a Construção.

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