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Na parte 1 discutimos o conceito da produtividade e uma alternativa de medi-la com baixos custos de apropriação. Agora vamos analisar os principais fatores que afetam a produtividade e o que fazer para melhorá-la substancialmente.

Podemos listar diversos fatores que afetam a produtividade de forma intensa. De uma forma simplificada podemos agrupá-los em fatores diretos (que são decorrentes do estágio tecnológico do setor/empresa) e fatores indiretos (que são decorrentes do estágio de desenvolvimento humano do setor/empresa). Os principais fatores desses 2 grupos são relacionados abaixo.

Fatores Diretos:

  • Processo Construtivo
  • Qualidade do projeto
  • Qualidade do planejamento físico da obra e programação dos insumos
  • Qualidade da contratação/supervisão
  • Fluxo, transporte e estoques dos insumos no canteiro
  • Controle da qualidade e da terminalidade

Fatores indiretos

  • Formalização do trabalho
  • Higiene e segurança do trabalho
  • Informação
  • Reconhecimento
  • Remuneração/premiação
  • Liderança da equipe administrativa
  • Ética

Os fatores diretos dizem respeito ao processo e a organização do trabalho e os indiretos à motivação do trabalhador. A produtividade somente atinge valores elevados quando um bom nível de desenvolvimento é obtido nesses dois grupos de forma simultânea.

Fatores Diretos – Do processo de trabalho

  • Processo Construtivo

Esse é um conceito muito abrangente e por si só é tema de diversos livros e simpósios. Já tive a oportunidade de discutir esse tema por algumas vezes em artigos e palestras, mas vale à pena mencionarmos novamente alguns pontos importantes que muitas vezes são esquecidos na obtenção da produtividade.

Existem várias maneiras de analisar um processo construtivo, mas no que se refere à produtividade dois fatores são preponderantes: o percentual de atividades artesanais envolvidas e o nível de interferência entre as diversas partes da construção.

Quanto maior a quantidade de atividades artesanais, maior a dependência da habilidade humana na obtenção da produtividade. As atividades artesanais são muito mais difíceis de serem sistematizadas e controladas, produzindo resultados com grande dispersão de valores. São atividades de difícil aprendizado com treinamento do operário demandando longos períodos de tempo e de resultados muitas vezes insertos. Quanto mais atividades artesanais um processo construtivo tem, menor a produtividade que se pode obter e maior a necessidade de investimento em treinamento.

O mesmo pode-se dizer sobre a quantidade de interferências entre as diversas partes da construção (subsistemas). Toda vez as interfaces não são previamente resolvidas, a produtividade é muito reduzida. Nessa situação, as atividades de arremates predominam, fazendo com que parte de serviços prévios tenham que ser destruídos e refeitos para anexar ou juntar novas atividades ou subsistemas.

O processo construtivo predominante no Brasil é abundante nesses dois fatores. Cada parte das nossas obras é feita de forma artesanal, com muita improvisação e baixíssimo nível de sistematização. O uso da mecanização ainda é muito baixo e a força humana em serviços penosos é ainda predominante. Além disso, o nível de interferência de cada subsistema é altíssimo.

Nossas estruturas de concreto armado são feitas com muitas vigas que interferem nas vedações verticais que interferem nos caixilhos e nos sistemas prediais, que interferem nos revestimentos, uma sequência infindável de arremates e desperdícios. Por sua vez, cada subsistema é feito com processos artesanais e de baixa produtividade, utilizando ferramentas rudimentares e de baixa precisão. Nosso sistema construtivo é naturalmente impreciso e para se obter qualidade é necessário muito esforço. Como exemplo, podemos citar as vedações verticais que são predominantemente feitas em blocos de concreto ou cerâmico onde é necessária muita habilidade dos pedreiros para manter as paredes no prumo e esquadro enquanto produzidas. Posteriormente essas vedações precisam ser rasgadas para a inserção dos sistemas prediais, rasgos esses que fragilizam totalmente as paredes e geram grande possibilidade de patologias. Os revestimentos são feitos também artesanalmente num processo “úmido” de difícil controle da espessura, planicidade e da textura. A dificuldade de controle fica ainda maior na fachada, justamente um dos locais de maior responsabilidade por se constituir o envelope do edifício. Nosso sistema construtivo é ultrapassado, intrinsecamente ruim, improdutivo, de baixo desempenho, mas infelizmente estamos atavicamente ligados a ele por motivos culturais e econômicos. O baixo nível de remuneração, o baixo nível gerencial, as crises econômicas freqüentes e outros infindáveis problemas setoriais fazem com que não consigamos dar um salto qualidade significativo nesse assunto. Estamos nessa “mesmice” a muitas décadas e se algo não for feito vamos continuar assim por muitas mais.

  • Qualidade do projeto

Esse é um item que houve algum avanço nos últimos 10 anos, mas ainda esta muito longe de ser resolvido. Os projetos normalmente são feitos por profissionais de bom nível teórico, mas de pouca experiência prática de construção. Como resultado muitas decisões importantes são tomadas na hora da execução por falta de detalhamento adequado, sem uma análise mais sistêmica da construtibilidade. Muitas dessas decisões são tomadas pelos próprios operários sem a participação da engenharia. Como não existe edifício construído sem que todas as decisões tenham sido tomadas, as que não forem decididas pela engenharia o serão por leigos ou por pessoas inexperientes tendo como conseqüência a perda de qualidade e da produtividade. É certo que o processo construtivo não ajuda no processo de projeto, pois é difícil um detalhamento correto com a presença de um alto grau de atividades artesanais e imprecisas. Nesse caso, partes do projeto são detalhadas sem a segurança de como serão realmente construídas. Infelizmente, a participação das equipes de obra no projeto ainda não é suficientemente valorizada por todos os envolvidos.

  • Qualidade do planejamento físico da obra e programação dos insumos

Como as atividades são fortemente artesanais e como o nível de interferência entre as partes das obras é muito grande, as condições do planejamento são muito dificultadas. O uso de processos rudimentares faz com que o planejamento seja confundido com a simples elaboração de um gráfico de Gantt. A maior parte dos planejamentos analisa somente a atividade isoladamente esquecendo das premissas necessárias para seu inicio e as interferências com atividades predecessoras e as condições mínimas para o início dos serviços com suas devidas antecedências.

A formação dos profissionais de construção em planejamento é tão elementar que se tornou uma atividade terceirizada mesmo sendo a principal atividade estratégica de uma construtora. Um planejamento mal feito resulta em tempos excessivos de espera por frentes de serviço, processo de contratação iniciada em cima da hora, negociações malfeitas, falta de insumos para o início e continuidade dos serviços, falta de consistência do processo de transporte, grande quantidade de estoques intermediários, e assim por diante. Infelizmente, esse é um dos fatores que mais afeta a produtividade e que ainda estamos devendo uma melhoria expressiva no seu desenvolvimento.

  • Qualidade da contratação/supervisão

Na maioria das vezes o foco principal do processo da contratação é o preço e o prazo sendo todos os demais itens relegados a um segundo plano. Raramente é discutido a especificação do processo de descarga, de transporte ou do processo de trabalho e a equipe a ser empregada. Discutir quais tipos de ferramentas e equipamentos serão usados é algo que raramente acontece. Dessa forma é comum vermos obras que usam tecnologias mais modernas como drywall, fachadas pré-fabricadas, sistemas hidráulicos sofisticados, virando argamassas na enxada ou descarregando caminhão usando o “lombo” dos operários como meio de transporte. Com a desculpa de que o empreiteiro é o “especialista” naquele serviço, tudo é deixado sob sua responsabilidade e quase nada é analisado em profundidade. O engenheiro atualmente não vê como sua responsabilidade a viabilização total da produção do canteiro. Após o inicio dos serviços, ele então inicia a retórica de criticas, cobranças e pressões por prazo em cima dos empreiteiros como se ele não tivesse nada haver com a solução do problema.

Temos que entender que as empresas empreiteiras no Brasil são tecnicamente e financeiramente frágeis e se não houver por parte dos contratantes uma eficiente relação de ajuda, o maior prejudicado será justamente a obra com a redução da produtividade e o conseqüente aumento dos custos e dos prazos. É dever de um bom engenheiro ajudar os seus empreiteiros de forma que eles possam ter lucro e não quebrem durante o período que estiverem na sua obra. Uma contratação bem-feita e discutida, um projeto analisado junto com o empreiteiro, um planejamento discutido em detalhes, bem como um processo de trabalho bem definido e controlado, ajuda a formar um empreiteiro e possibilita uma melhoria contínua da sua produtividade que será então considerada por ele nas próximas contratações.

Na parte 3 (próximo artigo) vamos discutir a logística do canteiro através do estudo do fluxo, transporte e estoques de insumos bem como do aumento da produtividade através do controle da qualidade e da terminalidade dos serviços.