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Os fatores indiretos são tão ou mais importantes para a produtividade quanto os diretos, pois impactam de forma decisiva na motivação do trabalhador, motor de todo processo de trabalho. São vários esses fatores e os mais importantes são discutidos a seguir:

  • Formalização do trabalho

Entre países, o trabalho informal está associado a sociedades subdesenvolvidas tanto quanto associado a setores atrasados dentro da economia de um mesmo país. Trabalho informal é sinônimo de falta de economia moderna e ao uso intensivo de mão de obra. Também é diretamente relacionado ao trabalho com baixo nível de organização e de ocupação heterogênea com baixa qualificação e com altos índices de rotatividade. Acontecem em setores da economia onde a luta pela sobrevivência é prioritária sobre o bem-estar do indivíduo e de sua família. O trabalho formal permite ao trabalhador estar inserido na legalidade, contribuir e ser amparado pela Previdência Social, recolher impostos e obter crédito. É o passaporte real para a cidadania. Uma empresa que se vale da informalidade para reduzir seus custos não irá se preocupar com a qualidade e a normalização de seus produtos e essa falta de conformidade técnica é tão nocivo à cadeia produtiva quanto à própria baixa produtividade. É inadmissível buscarmos aumento de produtividade em nosso setor e convivermos com os mais altos níveis de informalidade da economia situando-se hoje entre 60 a 65% da mão de obra setorial ativa. Também é inadmissível se valer da inflexibilidade e dos altos custos advindos de nossa legislação trabalhista como desculpa para a prática do trabalho informal. A informalidade nada mais é do que um eufemismo para a palavra ilegalidade.

  • Higiene e segurança do trabalho

Dificilmente uma empresa obterá índices de produtividade elevados se a segurança do trabalho não for prioridade uma vez que a salubridade no ambiente está diretamente relacionada à motivação, concentração, satisfação e qualidade do serviço que está sendo produzido. O acidente de trabalho afeta o operário, sua família, e emocionalmente todos os demais operários da obra, onde a insegurança e as tensões geradas se traduzem numa redução do ritmo de trabalho por longos períodos de tempo. Se quisermos que a produtividade de uma obra se aproxime da produtividade de uma fábrica é necessário que a obra se aproxime de um “chão de fábrica” tanto em sua organização como na higiene e na segurança. O aumento da segurança do trabalho exige planejamento, gerenciamento e processos construtivos racionalizados. Processos mais industrializados, com o uso de ferramentas e equipamentos adequados, onde a força humana e o trabalho penoso são descartados, produzem naturalmente ambientes muito mais seguros e produtivos.

  • Capacitação e Informação

Para se alcançar bons níveis de produtividade em um canteiro de obra é necessário que o operário, além de devidamente capacitado, esteja devidamente informado das atividades em andamento ou que vão iniciar no ambiente de obra. Infelizmente, esses são dois pontos que têm sido negligenciados em nosso setor e essa é uma das principais causas de não se conseguir expressivos ganhos de produtividade.

Como o nosso processo construtivo é constituído de atividades predominantemente artesanais, o processo de aprendizagem se dá principalmente por observação e por “osmose”. Um operário inicia na carreira como servente, com atividades auxiliares, e durantes anos fica observando os oficiais no seu trabalho. Num processo bastante informal ele executa algumas atividades que o oficial percebe que “ele leva jeito” para fazer. Até que um dia ele mesmo se considera um “oficial” e se consegue alguma empresa que o registre como tal, passará a ser chamado de “oficial”. Nos próximos anos ele vai aprimorando seus conhecimentos num processo de tentativa e erro, observando oficiais mais experientes e é claro, cometendo muitos erros desnecessários por não ter um acompanhamento eficiente e sistemático. Após muitos anos, quando finalmente consegue dominar bem seu oficio, começa a observar o encarregado na distribuição dos serviços e na orientação da sua equipe. Se tiver desenvolvido alguma tênue capacidade de liderança, um dia ele mesmo se considera “encarregado” e se conseguir uma empresa que o registre como tal ele será assim considerado. Poucos conseguem chegar a esse ponto e a maioria dos operários permanecem retidos nesses primeiros 2 níveis.

Novamente esse operário, agora chamado de encarregado, passa a observar os encarregados mais experientes e se tiver um mínimo de visão de como se processam alguns serviços concomitantes, e após muitos anos mais, poderá se considerar “contra-mestre” e assim será considerado se alguma empresa contratá-lo como tal. Da mesma forma acontecerá para chegar a mestre de obras.

Esse é um processo lento e ineficaz e absoltamente incompatível com a nossa necessidade de produtividade. Esse processo se agravou após a forte tendência de terceirização dos serviços nos últimos anos onde as construtoras praticamente abandonaram seu compromisso com a formação da mão de obra, deixando para empreiteiros pouco estruturados e descapitalizados essa imprescindível responsabilidade. A transformação das construtoras em “general contractors” é uma tendência importante e desejável, mas geram problemas que precisam ser discutidos e solucionados no nível setorial.

  • Reconhecimento

Os estudiosos da motivação ressaltam uma característica muito interessante do comportamento humano: a motivação pela avaliação. O ser humano se sente motivado pelo simples fato de ser avaliado e ter reconhecido o seu progresso, mesmo que esse reconhecimento não se traduza em ganhos materiais de curto prazo. O reconhecimento da inteligência, a principal característica do ser humano, é fator por si só de motivação. Infelizmente qualquer tipo de avaliação sistêmica de operários na Construção Civil é praticamente inexistente e temos desperdiçado esse importante recurso motivacional. As poucas avaliações que são feitas não privilegiam qualquer aspecto motivacional e, na maioria das vezes impactam de forma contrária, causando desmotivação.

  • Remuneração e premiação

Ao contrário que muitos pensam, todo o processo de remuneração na Construção Civil é voltado para não privilegiar a produtividade. De alguma forma se cristalizou junto aos administradores de obra e empreiteiros a idéia de que um operário precisa “levar para casa” um determinado valor para viver, independentemente da sua produtividade. Se esse raciocínio funciona bem para se formar um piso salarial, por outro lado desestimula a produtividade. Isso é fácil de ser visto nas definições das tarefas onde basta uma equipe de operários se destacarem com um aumento substancial na produtividade de um serviço para logo em seguida ver seu ganho na “tarefa” ser reduzido na etapa seguinte. Praticamente, isso significa que não importa o quanto a produtividade aumente pois, o ganho tenderá a permanecer o mesmo a longo prazo, sendo gradativamente ajustado para menos o valor unitário da tarefa. Além disso, se um oficial tiver seus ganhos freqüentemente próximos ou ultrapassados aos de seu encarregado (líder de equipe) devido ao aumento da sua produtividade, terá no encarregado um verdadeiro defensor da redução dos valores pagos nesses serviços. Para a equipe administrativa é inadmissível salários destoantes na cadeia hierárquica.

  • Liderança da equipe administrativa

Esse fator também é muito importante e pode ser decisivo em todos os itens anteriores. Entretanto é muito importante ressaltar a influência da liderança na higiene e segurança do trabalho. Um líder de equipe, principalmente um encarregado, sabe exatamente onde atuar nos pontos fracos e fortes de seus subordinados afetando diretamente na sua motivação. Sabe exatamente se um operário precisa ser treinado, se é dado a cometer riscos, se costuma ou não a usar EPIs, se é cuidadoso na limpeza do local de trabalho no final das tarefas, como ele trata a terminalidade dos serviços, etc. Sabe também dos problemas pessoais que cada subordinado está passando e como isso pode influir no seu trabalho. Em suma, para cada operário, os chefes de equipe têm todas as informações que podem influir de forma decisiva na produtividade e na segurança dos serviços sob sua responsabilidade e precisam ser treinados para liderarem. Qualquer liderança exercida hoje pelas equipes administrativas de obra foi desenvolvida de forma empírica e possuem enormes falhas. Liderança é uma matéria bem conhecida e sistematizada e pode ser aprendida como qualquer outra técnica e é um erro deixarmos nossas obras dependendo somente de “lideres natos”.

  • Ética

A ética permeia e é lastro de todos os itens anteriores. É um conjunto de normas de conduta que devem ser postas em prática no exercício de qualquer profissão e devem ser exercidas principalmente pelos níveis de chefia. É diretamente ligada ao respeito de um profissional para com seus pares sendo fator básico para a promoção da dignidade humana. A conduta profissional de um chefe de equipe, seja em que nível for, é observada por todos seus subordinados e afeta diretamente a predisposição dos operários para a produtividade e qualidade do trabalho. Afeta também o respeito do trabalhador pela empresa uma vez que é na ação dos chefes que os subordinados percebem a política da empresa.

A ética empresarial é percebida pelos trabalhadores em como a empresa “é” e para que “ela serve” e pode fazer toda a diferença na percepção do trabalhador estar “levantando uma parede” ou “construindo uma catedral”.

Todos os itens discutidos nos últimos 4 artigos não são novidade. Podemos elencar inúmeros outros itens também de grande importância. A questão não é o desconhecimento dos fatores que afetam a produtividade, mas a real disposição das empresas e do setor investir nesse sentido. Como o valor pago pela hora trabalhada em nosso setor é um dos mais baixos da indústria, esse descaso com a produtividade ainda não chegou a inviabilizar nossa atividade. Mas com a certa recuperação econômica nos próximos anos, somada ao envelhecimento da população, provocara consequente escassez de mão de obra e certamente o aumento significativo nos salários. Investir macivamente em produtividade deverá então ser a prioridade do setor para se viabilizar.