27 Fevereiro 2018

Arquitetura

Millenium Palace: o que o balanço do prédio de Balneário Camboriú nos ensina?

Original de Buildin
Millennium Palace Balneário Camboriú
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Um vídeo, que se tornou viral esse mês, mostra a movimentação do prédio mais alto do Brasil, o Millenium Palace, localizado no Balneário Camboriú, em Santa Catarina.

Você não viu?

Pois então, atualize-se! Quase 170 mil pessoas viram esse vídeo!

Mas se você espera que esse artigo vá discutir se o prédio Millenium Palace vai cair ou não, ficará decepcionado!

O objetivo deste texto é utilizar esse caso, que está chamando tanta atenção, para três lições extremamente importantes para os engenheiros e, em especial, os engenheiros civis!

Lição 1: As estruturas se movimentam!

Eu sei que os engenheiros mecânicos não ficam surpresos com essa afirmação. Esse pessoal está acostumado com peças que se movimentam.

Mas, nós engenheiros civis, em geral, projetamos estruturas para que fiquem “paradas”!

Apesar disso, um dos primeiros ensinamentos quando aprendemos estruturas é que um elemento que não possui deformação possui esforço igual a zero!

Portanto, estruturas que recebem carregamentos externos, sejam verticais (peso próprio, vedações, cargas de uso), sejam horizontais (nos edifícios altos, predominantemente, o vento), irão se deformar. E, a partir daí desenvolver esforços.

Então, quando o projetista disser que está preocupado com a estabilidade da edificação ou que tem que enrijecer a estrutura, pois, ele está muito deformável, não ache que é papo de maluco ou exagero.

O que ele está querendo dizer é que existem parâmetros de deformação ou de estabilidade a serem respeitados. E que, no caso, eles não estão sendo atendidos.

Ah! Então se o prédio está movimentando muito, quer dizer que vai cair?

NÃO!

E isso nos leva ao próximo item.


Lição 2: Nem tudo que balança cai!

Um dos conceitos mais importantes na engenharia de estruturas são os estados limites de dimensionamento dos elementos estruturais.

As normas prescrevem que os elementos devem atender a dois limites de dimensionamento:

  • ELU (Estado Limite Último de Ruptura): em que se submete as peças às condições mais desfavoráveis de funcionamento. A finalidade é garantir que, ainda que a estrutura venha a trabalhar em condições próximas às mais desfavoráveis, não haja ruptura;
  • ELS (Estado Limite de Serviço): em que se submetem as peças estruturais a condições usuais de carregamentos. Neste caso se verificam as condições de conforto do usuário na utilização da estrutura. Isso seja com relação a deformações excessivas, existência de fissuras, ou ainda, vibrações.

Com o avanço da informática e a possibilidade de análises estruturais mais sofisticadas, os vãos de nossos edifícios foram crescendo e sua altura aumentando.

Com estruturas mais esbeltas, é comum que as verificações de ELS sejam mais críticas no dimensionamento das peças estruturais. Por esse motivo, é possível que ainda que uma viga ou laje esteja com deformação excessiva, ela não tenha risco de ruptura. Ou seja, ela atende ao ELU, mas não ao ELS.

Millennium Palace BalneárioCamboriú

Então, ainda que um edifício não tenha risco de ruína, se ele não atender aos ELSs prescritos em norma, isso pode trazer sensação de desconforto e insegurança aos usuários?

A resposta é SIM.

É esse o caso do edifício de Camboriú, o Millenium Palace? A resposta é: NÃO SE PODE AFIRMAR NADA sem conhecer maiores detalhes da estrutura e após estudos criteriosos.

Mas, como assim? Não está claro o desconforto do morador do Millenium Palace tendo a sua sala invadida pela água da piscina?

É isso que pretendemos discutir a seguir.

Lição 3: Atenção aos detalhes!

Parece evidente que no caso em questão, um ELS foi ultrapassado!

Mas, não necessariamente, os parâmetros prescritos pela norma deixaram de ser respeitados.

É claro o desconforto da moradora com a água transbordando da piscina. E isso traz a sensação de insegurança!

Por outro lado, se a piscina fosse externa ao apartamento, como é o normal, é provável que ninguém percebesse esse transbordamento.

A água da piscina e a água da chuva se confundiriam, o balanço da água ficaria por conta do vento e, é possível que a movimentação do edifício não fosse percebida pela moradora do Millenium Palace.

E aí? Como a engenharia deveria tratar essa situação?

O item 5.2.2.6. da NBR 6.118 diz: “Exigências suplementares podem ser fixadas em projeto”.

E onde se deve fazer exigências suplementares? Onde condições especiais apontem para essa necessidade.

Então, parece claro que, nesse projeto, existia uma condição especial: uma piscina dentro dos apartamentos! E, consequentemente, não seria desejável que a água transbordasse. Com isso, condições mais restritivas de movimentação da estrutura teriam que ser adotadas para evitar a situação ocorrida no Millenium Palace.

Millennium Palace piscina reprodução

Foto reprodução

Conclusões sobre o caso do Millenium Palace

Daí, vem a grande lição: Detectar um problema é o primeiro passo para a solução!

Mais do que utilizar as técnicas adequadas, todo engenheiro deve desenvolver a sensibilidade para prever situações de potenciais falhas ou riscos.

Ah, mas agora é fácil ver o problema! Prever essa situação é bastante complicado!

É verdade! Mas, quem disse que é fácil ser engenheiro!


Foto do Autor

Autor
Marcos Monteiro

Pós-graduado em Estruturas pela Escola Politécnica da USP, desenvolve trabalhos e sistemas com foco na otimização do processo de produção de estruturas.

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