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Um vídeo, que se tornou viral na internet algum tempo atrás, mostra a movimentação do edifício mais alto do Brasil, com 177,3 metros de altura, o Millennium Palace. Com vista para o mar e 46 andares, o edifício de apartamentos de alto luxo está muito bem localizado na cidade de Balneário Camboriú, Estado de Santa Catarina. Ainda assim, o edifício se tornou alvo de muita especulação sobre sua segurança.

Mais especificamente, o Millennium Palace é um edifício que, inevitavelmente, se torna pauta de conversas quando o assunto é movimentação de estruturas.

Mas você não viu o vídeo que mostra a piscina de um apartamento do edifício de alto luxo na cidade de Camboriú transbordando?

Pois, então, veja agora! Mais de 200 mil pessoas já viram esse vídeo!

Mas, se você espera que esse artigo vá discutir se o prédio Millennium Palace vai cair ou não, certamente ficará muito decepcionado!

Afinal, não é este o objetivo deste texto. Quando me propus a escrever sobre a movimentação do Millennium Palace, minha intenção sempre foi a de jogar luz sobre um assunto muito importante e que precisa ser discutido.

Ou seja, utilizar esse caso, que está chamando tanta atenção de tantas pessoas, para desenvolver três lições extremamente importantes para os profissionais de engenharia. Em especial, é claro, para os engenheiros civis!

Lição número 1: Toda e qualquer estrutura se movimenta e isso é normal e esperado!

Eu sei que, muito provavelmente, os engenheiros mecânicos não ficam surpresos com essa afirmação. Afinal, esse pessoal está mais do que acostumado com peças que se movimentam. Mais que isso, cuja função é se movimentar.

Mas, nós engenheiros civis, em geral, projetamos estruturas para que fiquem “paradas”, não é mesmo?

Apesar disso, um dos primeiros ensinamentos quando aprendemos estruturas é que um elemento que não possui deformação possui esforço igual a zero!

Mas, enfim, o que isso significa?

Para simplificar, basta entender que estruturas que recebem carregamentos externos irão se deformar. E o esforço pode ser vertical, decorrente do peso próprio, das vedações, das cargas de uso, por exemplo, ou horizontais. Em edifícios altos, predominantemente, o vento. A partir dessa inevitável deformação, as estruturas vão desenvolver esforços.

Então, quando o projetista disser que está preocupado com a estabilidade da edificação ou que tem que enrijecer a estrutura, pois, ele está muito deformável, não ache que é papo de maluco ou exagero.

O que ele está querendo dizer é que existem parâmetros de deformação ou de estabilidade a serem respeitados. E que, no caso, eles podem não estar sendo devidamente atendidos.

Ah! Então, se o prédio está movimentando muito, quer dizer que vai cair?

NÃO!

E isso nos leva ao próximo item.

Lição número 2: Nem tudo o que balança cai!

Um dos conceitos mais importantes na engenharia de estruturas são os estados limites de dimensionamento dos elementos estruturais.

Por isso, as respectivas normas prescrevem que os elementos estruturais devem sempre atender a dois limites de dimensionamento. Vamos a eles!

ELU (Estado Limite Último de Ruptura)

O ELU é uma situação em que se submete as peças às condições mais desfavoráveis de funcionamento. Isso porque a finalidade é garantir que, ainda que a estrutura venha a trabalhar em condições próximas às mais desfavoráveis, não haja ruptura em nenhuma situação.

ELS (Estado Limite de Serviço)

Este é o estado em que se submetem as peças estruturais a condições usuais de carregamentos. Neste caso se verificam as condições de conforto do usuário na utilização da estrutura. Isso seja com relação a deformações excessivas, existência de fissuras ou, ainda, vibrações.

Com o avanço da informática e a possibilidade de análises estruturais mais sofisticadas, os vãos de nossos edifícios foram crescendo cada vez mais. Além disso, a altura de nossos edifícios também foi aumentando.

Assim, com estruturas cada vez mais esbeltas, é comum que as verificações de ELS sejam mais críticas no dimensionamento das peças estruturais. Por esse motivo, é possível que ainda que uma viga ou laje esteja com deformação excessiva, ela não tenha risco de ruptura. Ou seja, ela atende ao ELU, mas não ao ELS.

Então, ainda que um edifício não tenha risco de ruína, se ele não atender aos ELSs prescritos em norma, isso pode trazer sensação de desconforto e insegurança aos usuários?

A resposta é SIM.

É esse o caso do edifício de Camboriú, o Millennium Palace? A resposta é: NÃO SE PODE AFIRMAR NADA sem conhecer mais detalhes da estrutura e após estudos criteriosos.

Mas, como assim? Não está claro o desconforto do morador do Millennium Palace tendo a sua sala invadida pela água da piscina?

É isso que pretendemos discutir a seguir.

Lição número 3: Atenção aos detalhes!

Parece evidente que no caso em questão, um ELS foi ultrapassado!

Mas, não necessariamente, os parâmetros prescritos pela norma deixaram de ser respeitados.

É claro o desconforto da moradora com a água transbordando da piscina privativa. E isso traz a sensação de insegurança que não pode ser ignorada!

Por outro lado, se a piscina fosse externa ao apartamento, como é o mais corriqueiro, é provável que ninguém sequer percebesse esse transbordamento.

Talvez a água da piscina e a água da chuva acabariam por se confundir, o balanço da água ficaria por conta do vento e é possível que a movimentação do edifício não fosse sequer percebida pela moradora do Millennium Palace.

E aí? Como a engenharia deveria tratar essa situação?

O item 5.2.2.6. da NBR 6.118 – Estruturas de Concreto diz: “Exigências suplementares podem ser fixadas em projeto”.

Assim, onde devem ser feitas as exigências suplementares? Onde condições especiais apontem especificamente para a necessidade em questão.

Então, parece claro que, nesse projeto, existia uma condição especial: uma piscina dentro dos apartamentos! E, consequentemente, não seria desejável que a água transbordasse. Com isso, condições mais restritivas de movimentação da estrutura teriam que ser adotadas para evitar a situação ocorrida no Millennium Palace.

Conclusões sobre o caso do Millennium Palace

Daí, vem a grande lição deste caso: Detectar um problema é o primeiro passo para a solução!

Mais do que utilizar as técnicas adequadas, todo engenheiro deve desenvolver a sensibilidade para prever situações de potenciais falhas ou riscos.

Ah, mas agora é fácil ver o problema! Prever essa situação é bastante complicado!

É verdade! Mas, quem disse que é fácil ser engenheiro!

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