10 outubro 2017

Especialistas

Produtividade da concretagem: todo metro cúbico de concreto é igual?

Original de Buildin
produtividade da concretagem - marcos monteiro
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A prática de pagamento da mão de obra por metro cúbico de concreto executado esconde sérias distorções que podem trazer problemas para a obra. Uma delas é se pagar um preço médio para o m³ executado. Mas será que a produtividade da concretagem é a mesma para todas as estruturas?

Como foi discutido anteriormente, a abertura dos custos da mão de obra de execução da estrutura é vital por dois motivos principais.

Primeiro, para que os responsáveis pelo empreendimento tenham sua gestão sob efetivo controle. Depois, para que se viabilize a implantação de novas tecnologias.

Um dos primeiros passos nessa direção é o entendimento de que a produtividade da concretagem na execução do m³ de concreto é muito diferente entre as diversas etapas da obra.

Por isso, fazer a contratação por um valor médio vai prejudicar, em algum momento, uma das partes. Isso pode ocasionar questionamentos e até a descontinuidade do serviço, prejudicando assim o andamento da obra.

Quais os fatores que influenciam a produtividade da concretagem da estrutura?

Quando se buscam fatores que podem influenciar a produtividade da concretagem, são encontrados inúmeros. Alguns exemplos são motivação, planejamento adequado, mercado de trabalho, organização dos processos etc.

Porém, o que se deseja analisar neste artigo são como as características da estrutura entre as diversas partes da obra afetam na produtividade. Tipologias diferentes, terão resultados diferentes.

Quando um projetista estrutural está preparando uma proposta para elaboração de um projeto, ele considera essas diferenças. Afinal, sabe que cada região do empreendimento exigirá dedicação diferente na sua elaboração, o que impactará o valor do projeto.

Isso, também acontece na obra. E quais são os fatores mais significativos?

Fatores que influenciam a produtividade da concretagem

  • Tipologia dos pavimentos: usos diferentes implicarão em estruturas diferentes. Em um edifício, em geral, temos as seguintes tipologias.
    • Fundação: exige escavações para execução das estruturas e, com isso, dificuldades de trabalho por ocasião de chuvas e do tipo de terreno. Além disso, é o nascedouro da obra. Devem ser tomados cuidados redobrados na locação dos elementos estruturais. Garantindo-se que, em especial, os arranques dos pilares estejam na posição correta;
    • Contenções: estruturas verticais lineares são de execução mais trabalhosa. Também exigem movimento de terra e o posicionamento da armadura é mais complicado, já que deve ser montada, na maioria das vezes, no local da aplicação. Evidentemente, deve-se considerar produtividades diferentes para diferentes sistemas de execução: moldadas “in loco”, pré-moldadas, alvenaria estrutural etc.;
    • Subsolos: em sua maioria são estruturas simples, mas de grande extensão. Estas, em geral, não possuem simetrias. Exigem o trabalho de reforma de formas e devem considerar a complexidade da execução de rampas;
    • Pavimento Térreo: possui diversas singularidades – guaritas, piscina, deck, áreas de apoio, desníveis etc. Estas reduzem substancialmente a produtividade da execução. Quando possuem estruturas de transição, a produtividade cai ainda mais: armaduras pesadas e com montagem complexa, interferências com os demais elementos estruturais, entre outras dificuldades;
    • 1º Pavimento: apesar de possuir planta semelhante ao pavimento tipo, algumas diferenças devem ser consideradas: reforma de formas, vigas de borda mais altas para arremate de forros do teto do pavimento térreo, áreas adicionais de cobertura de ambientes do pavimento térreo, pilares com pé direito alto etc.;
    • Pavimento Tipo e Cobertura: o conceito atual de concepção dos projetos estruturais mantém as formas de todo o pavimento tipo sem alterações, na busca da maior produtividade. São os pavimentos mais produtivos;
    • Demais pavimentos: além dos andares que compõem todo empreendimento (barrilete e casa de máquinas), outros usos podem estar presentes: mezanino, duplex inferior e superior, entre outros. São pavimentos que exigem reformas de formas e, muitas vezes, não possuem simetria, devendo ter tratamento em separado;
    • Reservatórios Inferior e Superior: quando em concreto, deve levar em conta a complexidade da execução de suas paredes, seja na execução das armações, seja na dificuldade da concretagem.
  • Reformas e tipos de formas: alterações de formas quebram o ritmo da produção. O projeto deve, sempre que possível, prever a manutenção da geometria das formas em pavimentos de mesma tipologia. Além disso, deve-se considerar a produtividade na execução de cada tipo de forma. As formas de laje são as de maior produtividade e simplicidade de execução. A seguir, temos as formas de pilares. As de menor produtividade são as de vigas, em especial, por exigirem travamentos e escoramentos mais complexos. Do mesmo modo que cada uma dessas formas possuem diferentes custos por m² quando considerados os materiais, também têm produtividades diferentes. Consequentemente, devem ser alocados custos proporcionais de mão de obra para cada situação;
  • Repetições e simetrias: melhoram substancialmente a produtividade, já que a cada repetição a mão de obra vai encontrando formas mais rápidas e simples de montagem da estrutura;
  • Concentração de aço: estruturas com maior volume de aço por m³ são menos produtivas. Possuem mais pontos de amarração, maior interferência na montagem dos elementos estruturais, mais elementos de aço a serem posicionados. No pavimento tipo, não é apenas a repetição que traz a melhoria da produtividade. A quantidade de aço nos andares superiores é menor o que também contribui com maior agilidade na execução;
  • Complexidade da geometria da estrutura e das armações: estruturas de geometria mais complexas terão produtividade menor, seja pela complexidade de suas formas, seja pelos detalhes das armações. Em nossa empresa de projetos, fazemos um alerta aos engenheiros. Se o detalhamento de uma estrutura está dando muito trabalho, pare para estudarmos se é possível simplificar. Se está dando trabalho no papel, com certeza, a dificuldade na obra será multiplicada.

Conclusão

O entendimento e a medição das diferenças na produtividade da concretagem com a alteração das características acima é um importante primeiro passo no detalhamento dos custos de mão de obra para execução das estruturas.

No próximo “post”, analisaremos a influência das concepções estruturais na produtividade da concretagem de um empreendimento. Além disso, mostraremos porque muitas delas, apesar de mais produtivas, não são utilizadas em maior escala.

E você? Enxerga outras situações que alteram significativamente a produtividade da concretagem na execução da estrutura? Deixe seu comentário!

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Autor
Marcos Monteiro

Pós-graduado em Estruturas pela Escola Politécnica da USP, desenvolve trabalhos e sistemas com foco na otimização do processo de produção de estruturas.

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